Porque viver com dignidade é mais do que ter um teto — é ter um Estado que defenda esse direito.
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[Imagem de capa sugerida: fotografia realista de um bairro tradicional de Lisboa, com prédios mistos — reabilitados e devolutos.]
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O mito do “culpado óbvio”
Face ao aumento das rendas e à escassez de oferta, surgem culpados fáceis: os imigrantes, o Airbnb, os investidores. Mas a realidade é mais complexa. Esses agentes estão apenas a jogar com as regras existentes. E quem define essas regras? O Estado.
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Airbnb: problema ou solução parcial?
É verdade que o alojamento local alterou a dinâmica de muitos bairros. Mas em Lisboa, por exemplo, grande parte das casas que hoje estão em Airbnb estavam em ruínas ou devolutas antes de serem reabilitadas com capital privado.
O problema não é o Airbnb em si, mas a ausência de uma regulação clara e equilibrada que garanta espaço para habitação permanente.
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Sobrelotação: o mercado da exploração invisível
A crítica ao alojamento local esquece frequentemente que a sobrelotação habitacional é igualmente lucrativa — ou até mais.
Um T3 pode render 2000 EUR a uma família, mas se for dividido em quartos ou camas, pode gerar mais de 6000 EUR mensais.
Esta prática afasta famílias, distorce o mercado e promove a precariedade. Muitos imigrantes acabam por viver neste tipo de regime, pagando caro por pouco espaço, muitas vezes em condições indignas.
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Hotéis: o crescimento silencioso
Enquanto o debate público se concentra no Airbnb, os hotéis ocupam edifícios inteiros ou quarteirões completos, com impacto muito maior na perda de habitação permanente — e com muito menos escrutínio.
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O caso português e o esforço habitacional
Portugal apresenta uma das mais altas taxas de sobrelotação da Europa Ocidental. Segundo o Eurostat (2023):
[INSERIR GRÁFICO]
Exemplo: Portugal (18,7%) vs. Suíça (5,1%) – Taxa de sobrelotação habitacional
Além disso, o esforço das famílias portuguesas com a habitação ultrapassa os 30% em muitos casos, segundo dados do INE e da OCDE.
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E o Estado? Ausente.
Enquanto tudo isto acontece:
• O Estado mantém centenas de edifícios públicos devolutos (quartéis, hospitais, ministérios).
• Não cria incentivos reais para a construção de habitação acessível.
• Permite que o mercado se regule sozinho, sabendo que isso deixa milhares de pessoas de fora.
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Conclusão: mudar as regras do jogo
“Não se trata de culpar investidores, imigrantes ou plataformas — todos jogam com as regras que existem.
O problema é que quem faz as regras, o Estado, está a falhar gravemente no dever de garantir o direito à habitação.”
O debate precisa de equilíbrio. Não precisamos de procurar bodes expiatórios, mas sim de exigir coragem política e visão de longo prazo. Habitação é um direito, não um privilégio.

