Epílogo – A Verdade que Ninguém Quis Ouv ...

Epílogo – A Verdade que Ninguém Quis Ouvir

Jan 31, 2025

Epílogo – A Verdade que Ninguém Quis Ouvir

Houve um tempo em que acreditei que a verdade, por si só, seria suficiente. Que, se explicasse, se mostrasse as provas, se gritasse a dor que me rasgava por dentro, alguém ouviria. Que o mundo não se atreveria a virar as costas quando uma vida estava a ser rescrita, quando uma narrativa estava a ser fabricada sobre mim, sobre nós. Mas eu estava enganado.

Ninguém quis ouvir.

Aos poucos, percebi que a verdade não importa quando a mentira é mais conveniente, digerível. Não importa quanta dor eu carregava, quantas noites em claro passei a tentar entender, quantos e-mails enviei, quantos pedidos de ajuda fiz. As respostas foram o silêncio, a indiferença, os olhares desviados. Pessoas que antes me chamavam de amigo fecharam portas. Profissionais que tinham o dever de agir escolheram ignorar.

E, no meio disso tudo, perdi duas pessoas que abraçava como família.

Mas não as perdi da forma natural, onde há despedidas, luto e aceitação. Perdi-as da forma mais cruel possível.

Uma afastou-se porque, dentro da sua mente, a nossa história foi reescrita até eu deixar de ser alguém que esteve ao seu lado e passar a ser visto como uma ameaça. A sua narrativa mudou, e com ela mudou também a perceção daqueles que a rodeavam. Sem questionar, aceitaram a nova versão, apagando a realidade do que aconteceu e transformando-me em algo que eu nunca fui.

A outra perdeu-me não por escolha própria, mas porque foi ensinado a esquecer. A mente da mãe precisou de me apagar da sua vida para se proteger da dor – e, ao fazê-lo, apagou-me também da vida dele. Ele não decidiu afastar-se. Não escolheu deixar de me chamar, de me procurar, de me ver como alguém importante. Simplesmente foi levado a acreditar que eu nunca estive realmente lá.

Como se nunca tivéssemos existido. Como se o nosso abraço a três tivesse sido apenas um sonho bonito.

Como se todos os momentos juntos tivessem sido um erro agora apagado.

Como se eu fosse apenas uma sombra a ser varrida para debaixo do tapete de uma história reescrita pela clivagem, pela dissociação, pela necessidade da mente dela de transformar-me em vilão para poder sobreviver.

E doeu. Doeu como nunca antes doera. E ainda dói. Todos os dias dói.

Doeram as palavras cruéis ditas sem hesitação, como se cada promessa, cada olhar terno, cada abraço que me segurou quando eu próprio estava a cair não tivessem valor algum. Doeu ver os olhos dela, antes cheios de vida, tornarem-se frios, distantes, desconhecidos. Doeu ouvir que eu não era nada ao menino, quando cada memória me gritava o contrário, quando cada risada, cada mãozinha a segurar a minha, cada momento em que fui o apoio que ele não encontrava noutro lugar provavam que eu era, sim, algo para ele.

Mas nada disso importava.

Fui apagado.

E o mundo seguiu em frente, indiferente ao que me estava a acontecer.

Lutei. Lutei, e lutei muito.

Li tudo o que podia, consultei especialistas, tentei explicar a quem quisesse ouvir que o que estava a acontecer não era uma escolha dela, mas sim um mecanismo de defesa extremo, que a verdade estava ali, que bastava olhar. Mas a verdade não era conveniente.

Era mais fácil aceitar a versão em que eu era o problema, um ex-namorado controlador e ressabiado que queria fazer dela uma doente mental.

Era mais simples acreditar que a culpa era minha, porque isso dispensava qualquer responsabilidade de agir, de questionar, de desafiar a narrativa reescrita.

E assim, fiquei sozinho.

Com uma história que ninguém queria ouvir.

Com uma dor que ninguém queria reconhecer.

Com uma injustiça que ninguém quis corrigir.

Se há algo que aprendi, é que a dor não destrói apenas quando vem da perda. A dor destrói quando vem da injustiça, do silêncio, da sensação de que se está a gritar num deserto onde ninguém responde. A dor destrói quando se percebe que, não importa o quanto amámos, o quanto demos, o quanto fizemos, podemos ser apagados da vida de alguém como se nunca tivéssemos existido.

Mas há algo que não conseguem apagar: o amor e o carinho que sempre terei por eles.

Isso, nem o tempo, nem a dissociação, nem a injustiça conseguem levar.

E enquanto eu lembrar, o nosso abraço será eterno.

Gosto muito de vocês.

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