Comunismo 共产 e da tong 大同 na filosofia c ...

Comunismo 共产 e da tong 大同 na filosofia confucionista-marxista de Mao Zedong 毛泽东

Oct 10, 2024

imageImagem 1 - Mao Zedong 毛泽东 (1893-1976);

É comum encontrar posicionamentos críticos de estudiosos brasileiros sobre o socialismo chinês, mas não é comum encontrar estudos brasileiros que busquem entender qual é a amplitude e a profundidade das inspirações dos comunistas chineses. Quando essa busca incomum acontece, o que se percebe são avaliações de que o socialismo chinês é, no geral, uma aplicação das teorias de Karl Marx 卡尔-马克思 (1818-1883) e Vladimir Ilyich Ulianov [Lênin] (1870-1924) 弗拉基米尔 (列宁).

São difundidas ao menos três avaliações sobre a obra de Mao Zedong 毛泽东 (1893-1976) no contexto das lutas anti-imperialistas e revolucionárias chinesas do século 20. Não obstante, é difundida a ideia de que o pensamento de Mao é uma aplicação do que foi proposto por Marx em sua análise sobre o capitalismo. Igualmente, o pensamento de Mao é entendido como uma aplicação do que foi proposto por Lênin em sua análise sobre o imperialismo. Do mesmo modo, o pensamento de Mao é entendido como uma negação quase total da filosofia chinesa, sobretudo da filosofia confucionista (rújiā 儒家).

image Imagem 2 - Karl Marx 卡尔-马克思 (1818-1883)-Lênin 列宁 (1870-1924)

Discordo das avaliações de que o pensamento de Mao Zedong é uma mera aplicação ou adaptação das teorias de Marx e Lênin e uma negação quase total da filosofia chinesa, principalmente da filosofia confucionista. De meu ponto de vista, estas avaliações não se mostram consistentes por vários motivos. Um desses motivos reside no fato de que essas avaliações se fundamentam em traduções para o português as quais contém vários problemas que precisam ser apontados e resolvidos. Neste texto, me dedico a apontar um desses problemas e, consequentemente, a propor uma solução que possibilite o avanço para novos debates a respeito de novas perspectivas sobre as obras dos comunistas chineses.

Há um discurso de Mao Zedong chamado Lùn Rénmín Mínzhǔ Zhuānzhèng 论人民民主专政, de 1949, o qual foi publicado no Brasil e traduzido pelo título de Sobre a Ditatura da Democracia Popular. No início do texto de seu discurso, Mao utilizou uma expressão clássica da filosofia chinesa denominada dà tóng 大同. Essa expressão, por sua vez, é geralmente traduzida direta ou indiretamente por grande unidade ou grande harmonia. A esse respeito, cito o trecho em que Mao utilizou essa expressão, no original, acompanhado de suas traduções para o inglês, português do Brasil e português de Portugal respectivamente:

“对于工人阶级、劳动人民和共产党,则不是什么被推翻的问题,而是努力工作,创设条件,使阶级、国家权力和政党很自然地归于消灭,使人类进到大同境域” (1949)。

“But for the working class, the labouring people and the Communist Party the question is not one of being overthrown, but of working hard to create the conditions in which classes, state power and political parties will die out very naturally and mankind will enter the realm of Great Harmony” (1961)

“Para a classe operária, o povo trabalhador e os comunistas, não existe o problema de serem derrubados. O problema que se coloca para eles é o de realizar um árduo trabalho no sentido de criar as condições para o desaparecimento natural das classes, do poder estatal e dos partidos políticos, a fim de que a humanidade entre no caminho do comunismo no mundo inteiro” (1950).

“Mas, para a classe operária, o povo trabalhador e o Partido Comunista, o problema não está em ser derrubado, mas sim em trabalhar com afinco para criar as condições em que as classes, o poder de Estado e os partidos políticos desapareçam muito naturalmente e a humanidade entre no reino da Grande Harmonia” (1975).

image Imagem 3 - Sobre a Ditatura da Democracia Popular 论人民民主专政;

Esta expressão chinesa clássica é recorrente nas obras dos filósofos chineses durante os séculos 19, 20 e 21 para dialogar com a expressão europeia moderna denominada comunismo (gòngchǎn 共产). Neste contexto, Mao Zedong foi um dos vários pensadores chineses modernos que utilizaram a expressão dà tóng 大同 para refletir sobre o mais recente processo revolucionário da China e a construção do socialismo chinês a partir de uma perspectiva comunista. Contudo, em uma das primeiras traduções de seu discurso para o inglês, foi adicionada uma nota de rodapé na qual afirmou-se que dà tóng 大同, expressão usada no texto original de Mao, significava sociedade comunista. Na nota de rodapé, foi registrado o seguinte:

“Também conhecida como o mundo da grande harmonia. Refere-se a uma sociedade baseada na propriedade pública, livre da exploração e opressão de classe – um ideal elevado, há muito tempo apreciado pelo povo chinês. Aqui, o domínio da grande harmonia significa sociedade comunista” (1961)[1].

Essa nota de rodapé da tradução para o inglês não apresentou uma argumentação consistente que pudesse apontar para o significado de sociedade comunista de maneira tão automática. De modo semelhante, na tradução do discurso de Mao Zedong para o português do Brasil, os tradutores avançaram no sentido de excluir a expressão great harmony, a qual foi utilizada para traduzir dà tóng 大同 para o inglês. Em seu lugar, alojou-se a palavra comunismo:

“Para a classe operária, o povo trabalhador e os comunistas, não existe o problema de serem derrubados. O problema que se coloca para eles é o de realizar um árduo trabalho no sentido de criar as condições para o desaparecimento natural das classes, do poder estatal e dos partidos políticos, a fim de que a humanidade entre no caminho do comunismo no mundo inteiro” (1950).

Essa tradução não apresentou uma argumentação a respeito do porquê substituir a expressão dà tóng 大同 pela expressão comunismo (gòngchǎn 共产). Por outro lado, na tradução para o português de Portugal, os tradutores conservaram a expressão dà tóng 大同 e a traduziram por grande harmonia, a qual é derivada da tradução para o inglês por great harmony. Entretanto, a nota de rodapé da tradução portuguesa, assim como na tradução inglesa, também converteu dà tóng 大同 em comunismo de maneira automática:

“Mas, para a classe operária, o povo trabalhador e o Partido Comunista, o problema não está em ser derrubado, mas sim em trabalhar com afinco para criar as condições em que as classes, o poder de Estado e os partidos políticos desapareçam muito naturalmente e a humanidade entre no reino da Grande Harmonia (1).

(1) Aqui, o mundo da Grande Harmonia é a sociedade comunista” (1975).


[1] Also known as the world of Great Harmony. It refers to a society based on public ownership, free from class exploitation and oppression — a lofty ideal long cherished by the Chinese people. Here the realm of Great Harmony means communist society (1961).

image Imagem 4 - Traduções das obras de Mao para o inglês, português do Brasil e português de Portugal.

Considero que a conversão automática de dà tóng 大同 em comunismo (gòngchǎn 共产) representou o apagamento de uma expressão chinesa clássica que não se funda na tradição europeia. Uma das consequências desse apagamento, é a de que se impede a possibilidade de se examinar o diálogo entre dà tóng 大同 e comunismo (gòngchǎn 共产) empreendido pelos comunistas chineses. Em outras palavras, fecha-se a porta para o estudo consistente da filosofia chinesa contemporânea no sentido de se mapear com precisão seus fundamentos na filosofia chinesa clássica. O que significa que as obras de Karl Marx e Vladimir Lênin, por exemplo, só podem ser adequadamente compreendidas enquanto aspectos do marxismo chinês na medida em que se percebe seu diálogo intenso, sobretudo, com a filosofia confucionista.

Entendo que seja pertinente apontar uma solução para que os críticos do socialismo chinês não continuem a repetir a leitura unidimensional a qual afirma que o pensamento de Mao Zedong foi uma mera aplicação ou adaptação das teorias de Marx e Lênin. Se rompermos a dita barreira linguística, podemos partir da própria expressão dà tóng 大同 e rastrear sua fonte no sentido de estabelecer uma base consistente para o estudo das obras dos comunistas chineses.

É necessário apontar ao menos uma das obras clássicas em que a expressão dà tóng 大同 foi utilizada. Neste sentido, a obra que ora aponto se constituiu como um dos Cinco Clássicos (Wǔ Jīng 五經) da filosofia chinesa, cujo título é geralmente traduzido por Registros dos Ritos (Lǐ Jì 禮記). Esse clássico comporta inúmeras seções, dentre elas, está a que traduzo por Acionar os Ritos (Lǐ Yùn 禮運). Nessa seção, está registrada a seguinte passagem:

“大道之行也天下為公 。 選賢與能講信修睦故人不獨親其親不獨子其子 使老有所終壯有所用幼有所長矜寡孤獨廢疾者皆有所養。男有分女有歸。貨惡其棄於地也不必藏於己;力惡其不出於身也不必為己。是故謀閉而不興盜竊亂賊而不作 故外戶而不閉是謂大同 (禮記, 禮運)”。

“Quando o grande caminho da virtude foi seguido, tudo-sob-o-céu era um bem público. Os funcionários eram selecionados de acordo com suas habilidades. Suas palavras eram confiáveis ​​e eles cultivavam a harmonia. É por isso que as pessoas não tratavam apenas seus próprios parentes como parentes, não tratavam apenas seus próprios filhos como filhos e se certificavam de que os mais velhos tivessem tudo o que precisavam até o fim de seus dias, que os adultos tivessem tudo o que precisavam, que as crianças tivessem tudo o que precisavam para crescer, que viúvos e viúvas, órfãos, e doentes tivessem tudo o que precisavam para se sustentar. Eles se certificaram de que os homens tivessem um emprego e as mulheres tivessem um lugar onde pertencessem. Eles não permitiam que a colheita fosse deixada no campo, tampouco queriam acumulá-la para si mesmos. Eles não gostavam que seu poder não fosse útil para os outros, nem queriam usá-lo para si mesmos. Assim, planos ruins não eram colocados em prática, não havia assaltantes, ladrões ou traidores. Portanto, as portas externas não eram fechadas. Isto é chamado de dà tóng 大同” (2019)[1].

imageImagem 5 - Registro dos Ritos 禮記, Acionar os Ritos 禮運, passagem 1

Para o pesquisador Bart Dessein, a inspiração original para a confecção desta passagem que consta na seção que traduzo por Acionar os Ritos, pode ter vindo de passagens do cânone da filosofia maoista (Mò Jiā 墨家). Se considerarmos essa perspectiva, percebemos que os debates marxistas chineses sobre suas concepções de comunismo são mais amplos e complexos. Dito de maneira mais detalhada, não promover o apagamento da expressão dà tóng 大同 significa a possibilidade de se identificar diversos conceitos fundamentais da filosofia chinesa clássica na filosofia chinesa contemporânea. O que significa adquirir um conhecimento mais consistente sobre o processo revolucionário e construção do socialismo chinês no contexto do mundo capitalista. Em outros termos, não é suficiente compreender a relevância da análise de Marx sobre o capitalismo e a análise de Lênin sobre o imperialismo para os revolucionários chineses.


[1] When the big road of virtue was followed, “all-under-heaven” (tianxia 天下) was public good. Functionaries were selected according to their abilities. Their words were trustworthy, and they cultivated harmony. That is why people did not only treat their own relatives as relatives, did not only treat their own children as children, and made sure that elder people had all they needed until the end of their days, that grown-ups had all they needed, that children had all they needed to grow, that widowers and widows, orphans, and sick ones all had what they needed to sustain themselves. They made sure that men had a job, and women had a place where they belonged. They did not allow the harvest to be left in the field, but neither did they want to hoard it for themselves. They disliked that their power was not made useful for others, but neither did they want to use it for themselves. Therefore, bad plans were not put into practice, there were no robbers, thieves, nor traitors. Therefore, outer doors were not closed. This is what is called datong (2019).

A partir da expressão dà tóng 大同 pode-se chegar, por exemplo, a conceitos clássicos como as cinco constantes (wǔ cháng 五常), da filosofia confucionista, e os três laços (sān gāng 三綱), da filosofia legalista (fǎ jiā 法家). Esses conceitos fundamentaram a estabilidade política, econômica e social do Estado chinês, estão presentes na China moderna e fizeram parte dos debates chineses durante o processo revolucionário. Considero que esses exemplos são suficientes para apontar o fato de que a construção do socialismo chinês não depende exclusivamente das reflexões de Marx e Lênin.

Consequentemente, passamos a perceber os debates comunistas chineses de maneira interdimensional, e não mais de maneira unidimensional. Desse modo, considero serem equivocadas as avaliações unidimensionais, por exemplo, de que ou haveria uma mera continuidade das teorias de Marx e Lênin, ou haveria uma dialética um tanto estranha na obra de Mao Zedong. Para combater essas avaliações equivocadas, podemos apontar também as contribuições da revolucionária chinesa Qiu Jin 秋瑾 (1875-1907). Suas contribuições foram referências centrais para os membros que dirigiram o Partido Comunista (Gòngchǎn Dǎng 共产党) durante o processo revolucionário.

É necessário explicar também que, diferente dessas avaliações unidimensionais, a passagem original do discurso de Mao Zedong sugere que a busca chinesa contemporânea por uma sociedade comunista deve ser fundamentada na concepção clássica de dà tóng 大同. Por isso, as sugestões de Marx e Lênin são complementos ou contrapontos ao debate chinês sobre como pode funcionar uma sociedade comunista chinesa. Em outras palavras, Mao apresentou um pensamento próprio em que o marxismo-leninismo é um componente importante, mas não substitui a filosofia chinesa, principalmente a filosofia confucionista.

. Desse modo, considero serem equivocadas as avaliações unidimensionais, por exemplo, de que ou haveria uma mera continuidade das teorias de Marx e Lênin, ou haveria uma dialética um tanto estranha na obra de Mao Zedong. Para combater essas avaliações equivocadas, podemos apontar também as contribuições da revolucionária chinesa Qiu Jin 秋瑾 (1875-1907). Suas contribuições foram referências centrais para os membros que dirigiram o Partido Comunista (Gòngchǎn Dǎng 共产党) durante o processo revolucionário.

imageImagem 6 - Qiu Jin 秋瑾 (1875-1907);

É necessário explicar também que, diferente dessas avaliações unidimensionais, a passagem original do discurso de Mao Zedong sugere que a busca chinesa contemporânea por uma sociedade comunista deve ser fundamentada na concepção clássica de dà tóng 大同. Por isso, as sugestões de Marx e Lênin são complementos ou contrapontos ao debate chinês sobre como pode funcionar uma sociedade comunista chinesa. Em outras palavras, Mao apresentou um pensamento próprio em que o marxismo-leninismo é um componente importante, mas não substitui a filosofia chinesa, principalmente a filosofia confucionista.

Por fim, a partir da relação filosófica entre marxismo (mǎkèsīzhǔyì 马克思主义) e confucionismo, é possível afirmar que o marxista Mao Zedong manteve uma postura clássica confucionista. A postura de incluir, de maneira ampla e intensa, diferentes concepções, métodos e conceitos em sua forma de praticar e teorizar a partir da realidade em que viveu. Por isso, considero ser necessário incluir de maneira central o estudo da filosofia chinesa no debate sobre o socialismo chinês e as obras dos intelectuais marxistas chineses. Destarte, a partir do instante em que se identifica as expressões dà tóng 大同e comunismo (gòngchǎn 共产) na obra de Mao, entendo que o marxismo chinês se torna o ponto de partida da China moderna. Ao mesmo tempo, o marxismo chinês torna-se também a mais recente porta de entrada para se conhecer a filosofia chinesa, principalmente a confucionista.

Referências:

禮記. “禮運”.《武英殿十三經注疏》本《禮記正義》.

毛澤東. 论人民民主专政: 纪念中国共产党二十八周年 (一九四九年六月三十日), 1949.

范文澜. 范文澜历史论文选集-中国社会科学出版社 (1979年4月)

张造群. 核心价值大众化的历史经验: 以“三纲五常”的提炼和传播为例. 中州学刊. 2014. 第8 期 (总第212期)

DESSEIN, Bart. “Guo Moruo on Marx and Confucius”. Asian Studies VII (XXIII), 1 (2019), p. 129–151.

MAO, Tse-Tung. “On The People’s Democratic Dictatorship: In Commemoration of the Twenty-eighth Anniversary of the Communist Party of China”. Selected Works of Mao Tse-Tung. Peking: People’s Publishing House, 1961, Volume IV, p. 412.

______. “Sobre a Ditatura da Democracia Popular”. Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 30 – Outubro, 1950.

MAO, Tsetung. “Sobre a Ditadura Democrática Popular”. Obras Escolhidas de Mao Tsetung. Edições em Línguas Estrangeiras, Pequim, 1975.

Escrito por:

Carlos A. B. Corrêa é doutorando em Ciências Sociais (UNICAMP) e responsável pelo Projeto Lyra Chineza.

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