Capítulo 6: Teremos convidados para o al ...

Capítulo 6: Teremos convidados para o almoço

Aug 26, 2026
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O sol do outono brilhava forte e quase em seu ápice na propriedade dos Kempth. A grama, já seca pelo verão quente nas montanhas, seguia o tom das folhas que rapidamente perdiam seu verde e assumiam matizes de cores que variavam do laranja ao marrom, passando pelo vermelho escuro, o bronze e o dourado. Apesar de um pouco mais caudaloso, o Regato dos Viajantes permanecia calmo, como de hábito. Degraus de elevação foram feitos um pouco à frente do cais que a família usava para sua recreação. Ele agora levava água para novas áreas da propriedade dos Kempth, que foram adquiridas de seus vizinhos mais a leste da propriedade. Cinco anos haviam se passado desde a partida de Turiau para a guarda, e Eideard expandira seu negócio para terras e cidades mais ao norte e a nordeste, para além dos limites do velho Rio do Vale Afastado. Além de arados, enxadas, pás, fivelas, arreios, feixes-de-mola e outros produtos para ajudar na agricultura e na criação de animais, ele mesmo havia iniciado algumas plantações e criação de animais, como cavalos, vacas e algumas cabras, de onde conseguia extrair um delicioso e muito conhecido queijo na região. Com isso, houve necessidade de assentar mais funcionários e alguns representantes comerciais que levavam seus produtos para serem vendidos em diversos centros comerciais.

 

Thomas ajudava Ofeak e os outros empregados nos afazeres da propriedade enquanto seu pai fora à vila de Hillfar buscar dois convidados para o almoço. Um dos convidados era um famoso comerciante itinerante que vendia diversas mercadorias por todo o arquiducado e, ouvindo falar nos artefatos produzidos por Eideard, quisera vir estabelecer um acordo comercial para também distribuir seus produtos. Por sua vez, Sine e uma outra ajudante preparavam um banquete de boas-vindas aos convidados que deveriam permanecer na propriedade por algumas semanas, aguardando a finalização de algumas mercadorias que levariam consigo para comercializarem por todo o arquiducado.

 

Era por volta do meio-dia quando Sine pediu a um dos empregados que chamasse Thomas para lavar-se e aguardar os convidados à mesa. Thomas, que estava naquele momento colocando o feno para dentro do alpendre com um grande garfo em uma carroça, ouviu o recado e imediatamente fincou a ferramenta na grande porção já formada e pôs-se em direção ao Regato dos Viajantes, onde se despiu e entrou na água fria para tomar um breve banho, a fim de tirar o cheiro oriundo do estábulo. Saindo do regato, vestiu-se e foi até sua casa aguardar os convidados.

 

Chegando na cozinha, prontamente cumprimentou sua mãe com um abraço pelas costas e um beijo carinhoso no rosto, dizendo:

 

— Bom dia, minha senhora!

 

— Deixe de bobagens e vá se sentar! — disse Sine, tentando livrar-se do abraço apertado do filho em meio a sorrisos e ameaças jocosas com a colher de pau que segurava. Thomas então foi sorrindo, enquanto Sine retirou com uma tenaz um pouco da lenha para abaixar o fogo, mantendo a refeição quente sem queimar. Era o famoso guisado de cervo da senhora Kempth. Uma receita fenomenal com carne de cervo jovem, ervas e legumes. Um pernil assado no forno externo à casa também estava finalizando seu preparo, com batatas coradas, alecrim, tomilho e outras ervas que deixavam seu aroma impecável e apetitoso.

 

Em meio a tantos cheiros e sabores maravilhosos, Sine sentia um odor que não lhe agradava nem um pouquinho. Olhou para Thomas e viu que sua camisa estava muito suja. Franzindo o cenho e aguçando seus olhos na direção do rapaz, disse:

 

— Então é daí que vem esse cheiro horrível de estábulo?!

 

— O que foi, mãe? — perguntou o rapaz com cara de espanto e olhando para si mesmo.

 

— Há quantos dias você não lava essa camisa, mocinho? Chega a estar marrom debaixo dos braços de tanta sujeira! Vamos, tire e me dê aqui agora! — disse Sine com ar severo e de poucos amigos. Thomas tirou a camisa e entregou à sua mãe, que disse:

 

— Agora vá até seu quarto e apanhe uma camisa nova e limpa. Vou ver se consigo limpar esses trapos e usar como cobertura para o galinheiro.

 

Então, Sine foi depressa para fora da casa com o intuito de colocar a camisa do rapaz em uma solução de água quente com uma pasta feita de gordura de ovelha fervida juntamente com o extrato de algumas flores.

 

Neste momento, Ofeak apareceu à porta, também atendendo ao chamado da senhora Kempth. Vendo que esta passava com certa pressa e cara de poucos amigos, cumprimentou-a com um aceno de cabeça e entrou na casa, sentando-se ao lado de Thomas à mesa. Sem aguardar muito, foi logo perguntando ao rapaz:

 

— O que você fez dessa vez, garoto?

 

— Pode parecer estranho, mas dessa vez eu juro que não fiz nada — disse Thomas.

 

— Sua mãe não sairia daqui tão furiosa e apressada se você realmente não tivesse feito nada — disse Ofeak.

 

— Bem, acho que foi porque eu devo ter esquecido a camisa ontem lá no estábulo e hoje eu a coloquei de manhã para trabalhar — disse Thomas.

 

— E aí, hoje ela sentiu esse cheiro amaldiçoado de excremento de cavalos, cabras e vacas que estava a alastrar-se por toda sua cozinha, justamente no dia em que ela irá receber visitas importantes para o almoço — disse Ofeak, cruzando os braços e balançando a cabeça negativamente de forma discreta.

 

— Bem, os anões não são conhecidos por serem lá muito educados e polidos — disse Thomas, recebendo a seguinte resposta do anão:

 

— Para você ver o quão selvagem e rude foi o seu comportamento.

 

Thomas então sorriu e disse:

 

— É melhor eu parar por aqui. Afinal, ainda tem os treinamentos da tarde.

 

— Não se preocupe quanto a isso. Eles já serão mais intensos e severos que o comum por conta da sua conduta para com sua mãe e seu professor — disse Ofeak, olhando para o rapaz e complementando em seguida com um sorriso sarcástico e com um toque de sadismo.

 

— Senão vejamos: você já me faz ficar por horas com o peso de apenas uma das pernas em cima de uma estaca à beira de uma cachoeira com cerca de trinta metros de altura; estica minhas pernas até que eu consiga ficar num ângulo maior que cento e oitenta graus; faz eu andar entre os peixes da cachoeira sem afugentá-los para então pegar um deles com a mão; me coloca de olhos vendados entre víboras, aranhas venenosas e escorpiões, sem que eles percebam minha presença; faz eu repetir todos os exercícios que aprendi nos livros até hoje umas cem vezes por dia, tudo isso com anéis de ferro nos braços e nas pernas que devem ter o meu peso em cada um deles ou mais; coloca pedras de rio e ainda sobe nas minhas costas para que eu fique correndo pela montanha; sem contar os combates com os mogunis que ultimamente têm sido realizados com os cinco ao mesmo tempo. — disse Thomas, enquanto enumerava nos dedos cada uma das coisas que Ofeak o instruía a fazer.

 

— E você está reclamando? Pensei que queria ser forte para defender sua família e o legado de seu avô — disse Ofeak.

 

— De forma alguma — disse Thomas, dirigindo-se até a panela com o guisado para pegar uma porção com uma pequena cuia e amenizar sua fome, que estava grande naquele momento, e complementou:

 

— Apenas estou dizendo isso porque, sinceramente, não consigo vislumbrar sadismo maior.

 

— Você chama tudo que fizemos até agora de sadismo? Estás com um pensamento errado, garoto. Tudo que fizemos é simplesmente um dia normal no exército anão. Não chegamos nem perto de fazer exercícios propriamente ditos. Você acha que esses músculos e essa resistência que você ganhou nesses últimos anos viriam de que forma? — disse Ofeak.

 

— Entendo — disse Thomas, envergonhado por sentir que falara demais.

 

— Ademais, tudo que fizemos até hoje foi para forjar não só o seu corpo, mas principalmente sua mente e sua perspicácia em um combate. Entenda de uma vez por todas, garoto: ser forte é ter a mente e o corpo em sintonia. O tanto que você fizer de exercícios físicos precisará realizar de exercícios mentais. Ou seja, precisa se concentrar em não entender o que te passo como esforço, mas como uma forma de engrandecer seu corpo e seu espírito. Você entendeu?

 

— Sim, senhor — disse Thomas, baixando a cabeça e sentando-se novamente ao lado de Ofeak.

 

— Ótimo. E que assim seja. Lembro-me bem da história de um soldado, que aconteceu há muito tempo, quando Salaluvaa sequer havia sido construída. Seu nome era Rhormin, o Gigante. Era um homem alto, forte e muito musculoso. Tinha fama de conseguir separar um homem em duas metades apenas com as mãos. Rhormin era mau, e seus bárbaros traziam devastação desde a grande Floresta do Meio até as cidades de Sviandy e Millake, a leste da atual capital. Então, um jovem guarda da cidade de Sviandy desafiou o gigante Rhormin para um combate franco. Se ele o vencesse, poderia tomar e pilhar toda a cidade. Senão, deveria voltar pela floresta do meio e deixar o arquiducado para sempre. Por ser um homem mais baixo e com menos preparo físico, o bárbaro aceitou o desafio. Eles ficariam no centro de uma roda formada metade pelos homens de Rhormin, metade pelos demais guardas, logo à frente do portão principal da cidade, onde havia barricadas e algumas carroças para impedir a entrada dos inimigos. O bárbaro pegou um grande e pesado machado, desejoso de acabar logo com aquele confronto, uma vez que não via a menor possibilidade de perder aquela luta contra um inimigo notoriamente menor e mais fraco.

 

— Mas não importa o tamanho do oponente, desde que se conheça a forma certa de usar sua força contra ele mesmo, certo? — disse Thomas, já sentado e comendo.

 

— Não me interrompa, rapaz. E preste bastante atenção nesta história — repreendeu Ofeak, que continuou a contar sua história:

 

— O Bárbaro era tão confiante de si que não esperou muito tempo para começar a atacar e golpeou o guarda com todas as suas forças. Contudo, o guarda era muito ágil e conseguia esquivar-se de todos os golpes do bárbaro, que, mesmo sendo poderoso, era lento. O combate foi decorrendo até que o bárbaro, já cansado e muito furioso, resolveu tentar levar o oponente para perto das barricadas, onde não poderia ficar deslocando-se de um lado para outro e desviando de seus ataques. Seu plano funcionará, e agora o guarda ficou encurralado entre algumas carroças após receber um poderoso soco. Pegou o guarda pela garganta com apenas uma mão e começou a espremê-la. O guarda debatia-se para tentar se soltar do poderoso estrangulamento, mas sua força não era páreo para a do bárbaro, que o atirou contra uma das carroças da barricada.

 

— Caramba, então o guarda pereceu?! — perguntou Thomas, curioso.

 

— Cale-se e me deixe contar. A carroça desmontou-se toda, e uma grande nuvem de pó e serragem subiu. O bárbaro não conseguia ver nada no meio dos escombros e aproximou-se com o intuito de arrancar a cabeça do adversário. Tateou a palha no meio da densa poeira e, de repente, sentiu o fio do aço cortar sua garganta. Era o guarda, que em seguida subiu em cima do bárbaro e saiu exibindo a cabeça de seu adversário como um troféu, do meio da névoa e poeira intensa. Todos os demais integrantes do bando saíram correndo, tamanho era o pavor que sentiam naquele momento — relatou Ofeak.

 

— Há uma coisa que não entendi nessa história. Como o guarda conseguiu sobreviver depois de ser arremessado contra uma carroça com tanta força que chegou a destruí-la?

 

— Eu não terminei de contar a história, rapaz. Cale-se e ouça. Depois da batalha, o guarda foi considerado um herói na cidade. Porém, ele recusou este título, uma vez que houve ali um grande esforço conjunto e secreto. No dia anterior, carroças com madeiras podres foram colocadas com muita serragem e farinha. Embaixo da roupa do guarda, colocaram também uma jaqueta de couro grosso para proteção. O plano era justamente fazer com que o bárbaro arremessasse o guarda contra as carroças para que ele pudesse ficar cego, acreditando que estaria morto. Era a oportunidade de pegá-lo sem defesa.

 

— Nossa! Então eles premeditaram tudo?! — perguntou Thomas, surpreso.

 

— Sim. Essa foi a melhor forma que encontraram para deter o bárbaro. Usar a inteligência contra a brutalidade.

 

— Entendi — disse Thomas.

 

— Lembre-se: a melhor maneira de você derrotar um adversário é fazer com que a força dele seja sua própria ruína — disse Ofeak, levantando-se e dirigindo-se à porta, enquanto Thomas ficou refletindo por algum tempo sobre a história heroica que acabara de ouvir.

 

Vozes surgiram do lado de fora da cozinha enquanto Thomas buscava entender melhor as palavras de Ofeak. Comendo vagarosamente ovos, tomates e um delicioso caldo, Thomas não percebeu quando repentinamente uma figura diferente adentrou sua casa, acompanhada de sua mãe. Tratava-se de uma moça, com mais ou menos sua idade. Tinha cabelos vermelhos como as folhas de uma macieira tocadas pelo sol do verão. Seu rosto delicado e sua pele lisa, salpicada com algumas sardas bem discretas, auxiliavam a destacar seus olhos violetas. Seus lábios finos e discretos tinham um brilho natural, e seu corpo esbelto e muito bem torneado necessitava de poucos adereços para ser chamativo. Aliás, a moça não usava nenhum adereço, exceto por uma corrente de prata, da qual pendia um pequeno pingente com um cristal azul claro. Seu vestido era verde e usava uma capa cinza escura, de tecido leve, que usava para proteger sua pele clara e rosada do sol, a qual retirava no momento em que entrou no recinto em meio a um sorriso maravilhoso e radiante.

 

Thomas ficou paralisado por alguns instantes. Ele nunca havia visto tamanha beleza de perto e sentiu-se completamente desajeitado, sem saber como reagir. Zaira também pareceu notar a sua confusão, e seu sorriso suavizou-se, como se ela entendesse a surpresa em seu olhar. Ela não sabia como lidar com um rapaz que parecia ter perdido as palavras.

 

Foi quando Sine observou que seu filho estava sem camisa e sujo. Num rompante de fúria e tentando conter-se, ela disse entre os dentes:

 

— Thomas! Onde estão seus modos!

 

O rapaz então voltou de seu breve torpor e deu-se conta de que não fizera o que sua mãe havia ordenado. De forma atabalhoada, tentou levantar da cadeira e acabou derrubando-a, seguindo para seu quarto aos tropeços. Ao passar pela sala, viu que seu pai conversava com um homem, mostrando a decoração e algumas histórias da mobília trazida por sua mãe. De supetão, Thomas parou e, antes que seu pai pudesse virar, deu um salto pela janela, rolando no chão e correndo em seguida na direção da oficina, onde pretendia lavar-se no tonel de água que ali havia.

 

Sine, muito constrangida pelos maus modos de seu filho, tentou remediar a situação com palavras gentis à moça:

 

— Perdoe meu filho. Normalmente ele não fica sem camisa dentro de casa. Mas, como hoje o dia está muito quente, acabou que suas roupas ficaram muito sujas, e precisei lavá-las. Asseguro-lhe que isso não tornará a acontecer.

 

— Não se preocupe, senhora — respondeu de forma gentil a moça. — Realmente o dia hoje está quente e, afinal de contas, entrar pela porta da cozinha não é algo muito habitual para as visitas.

 

— Fique tranquila, minha jovem. Conversarei com ele sobre modos mais tarde. Por hora, fique à vontade e sirva-se à vontade — disse Sine, entregando à moça uma caneca de cerâmica com água fresca retirada de uma fonte natural próxima.

 

Após saciar sua sede, a moça agradeceu:

 

— Muito obrigada, senhora…

 

— Sine. Pode me chamar assim — disse com um sorriso amável no rosto.

 

— Obrigado, senhora Sine. Chamo-me Zaira. É um enorme prazer de minha parte conhecê-la — respondeu a moça, fazendo uma reverência cortês, segurando a saia de seu vestido.

 

— Vejo que a senhorita é muito prendada e educada. Obrigado pelo gesto cortês, mas podemos ter um pouco menos de formalidades. Afinal, vocês passarão um bom tempo em nossa propriedade.

 

— Espero que seja um tempo maravilhoso — respondeu Zaira com um grande sorriso.

 

Sine então conduziu a menina até a sala, onde Eideard e o outro convidado os aguardavam.

 

— Aqui está. Por favor, sente-se, senhorita — disse Eideard, oferecendo um lugar próximo a seu pai em uma poltrona confortável.

 

— Obrigado pela gentileza, mestre Eideard. Perdoe-me se causei algum transtorno para o senhor ou seu filho.

 

— Meu filho? — perguntou Eideard, um tanto confuso.

 

— Deixemos isso tudo de lado. O importante é que a senhorita me parece melhor agora — disse Sine, tentando desconversar.

 

— Obrigado por vossa generosidade, lady Kempth. Calculei mal o trajeto e acabamos ficando sem água desde hoje pela manhã.

 

— Não há problema nenhum, mestre…

 

— Mihail Sullivan é meu nome, e negócios são minha vida — disse de forma cortês o convidado, beijando a mão de Sine de forma cavalheiresca.

 

— Fico feliz que todos estejam bem e confortáveis. Bem, acredito que este seja um bom momento para uma boa refeição. Acredito que nossos convidados estejam com bastante fome depois de tantas léguas de viagem — disse Eideard com um largo sorriso.

 

— Exato. Vou preparar a mesa e logo os chamarei. Enquanto isso, aceitam algum aperitivo? — disse Sine de forma solícita.

 

— Sem querer abusar de sua generosidade, lady Kempth, aceitamos sua oferta com alegria e humildade — disse Sullivan, curvando a cabeça.

 

— Já trago algo para vocês degustarem. Por favor, sintam-se à vontade — disse Sine com um sorriso e fazendo uma discreta reverência. Ela então partiu em direção à cozinha para cortar umas fatias de pão, presunto, queijo e azeitonas, acompanhadas de um vinho branco leve, de uma safra seleta e armazenado num local fresco, dando-lhe uma temperatura muito agradável num dia quente como aquele.

 

Thomas chegou à tina de água e mergulhou metade de seu corpo na água, como se estivesse acabado de fugir de uma fornalha e com o corpo completamente tomado pelas chamas. Ficou com a cabeça dentro da água por quase um minuto até que sentiu uma mão forte puxar seus cabelos.

 

— Estás louco, rapaz?! O que houve?! — perguntou Ofeak, assustado por ver a forma como Thomas havia saltado pela janela e se dirigido desembestado até a tina de água. Ainda um tanto confuso, Thomas responde:

 

— O que houve, Ofeak?

 

— Eu que lhe pergunto, rapaz. O que está havendo?! Você enfiou a cabeça na tina como se estivesse sendo picado por um enxame de Vespas de Fogo — perguntou Ofeak, alarmado com a atitude estranha do rapaz.

 

— Não foi nada, Ofeak. Havia esquecido que precisava me lavar para receber os convidados, conforme minha mãe havia dito — respondeu Thomas, tentando recompor-se da melhor maneira possível, buscando dentro da oficina um pano para secar seu rosto.

 

— E para isso você precisa saltar como um louco pela janela e mergulhar com tudo a cabeça na tina de água da oficina? — questionou Ofeak, sem entender muito bem o que estava acontecendo.

 

— Não se preocupe, Ofeak, meu velho. Ficará tudo bem. Ficará tudo bem… — disse Thomas, encostando no ombro de Ofeak e olhando para a direção de sua casa enquanto falava, diminuindo gradualmente o tom de voz, enquanto caminhava em direção à casa novamente.

 

Esgueirando-se pela parede próximo à porta da sala de estar, Thomas tentava escutar se as visitas estavam ainda por ali. Ouviu vozes que falavam sobre compra e venda de mercadorias em diversas cidades, demandas por produtos que auxiliassem os lavradores de terras distantes com sua lida diária, carroças, mantimentos, dentre muitos outros assuntos sobre a rotina dos mercadores quando estão vagando pela estrada. Foi então que ouviu sua mãe convidar a todos a irem à mesa de jantar próxima à cozinha, pois o almoço já estava servido. Todos se levantaram e dirigiram-se ao outro cômodo. Foi a oportunidade que Thomas teve de esgueirar-se o mais sorrateiramente possível até seu quarto, buscando uma camisa que pudesse utilizar. Vestiu uma o mais rápido possível e seguiu para a mesa do almoço.

 

Ao chegar à mesa, logo foi recebido por seu pai, que o apresentou aos convidados:

 

— Aqui está. Seja bem-vindo, filho! Senhor Sullivan, este é meu filho mais novo, Thomas.

 

— É um prazer conhecê-lo, senhor Sullivan.

 

— Chame-me apenas Sullivan, meu bom rapaz. E é uma honra para mim conhecê-lo pessoalmente. Seu pai havia me dito que eras um rapaz forte, obediente e de bom coração. Mas, confesso, não esperava encontrar um rapaz tão robusto e tão bem educado — respondeu o senhor Sullivan, levantando-se da mesa e cumprimentando Thomas com um aperto de mão firme e com um sorriso agradável. Então, virou-se para Zaira, que imediatamente se levantou, e a apresentou ao rapaz:

 

— Esta é Zaira, minha filha. Pelo que seu pai me disse, vocês devem ter mais ou menos a mesma idade.

 

— É um prazer e uma honra conhecê-la, mestre Thomas — respondeu Zaira com uma reverência cordial, segurando as pontas do vestido e inclinando-se levemente.

 

— A honra é toda minha, senhorita — respondeu Thomas, inclinando-se com uma reverência, tomando assento logo em seguida, seguido pela moça.

 

Eideard tomou a palavra e pronunciou-se:

 

— Antes de mais nada, gostaria de propor um brinde aos nossos estimados convidados e selar de forma efetiva não apenas uma promissora parceria de negócios, mas o início de uma grande amizade entre o senhor Sullivan e sua filha com esta família. Que todos saibam e façam saber que o senhor Sullivan é bem-vindo em minha propriedade e aqui deverá ser tratado como um convidado de honra pelo tempo que lhe for confortável permanecer nesta propriedade. Um brinde ao senhor Sullivan! — disse Eideard, levantando uma taça com o vinho branco, e todos o seguiram. Em seguida, o senhor Sullivan tomou a palavra e disse:

 

— Agradeço vossa hospitalidade e vossa generosidade para com este humilde comerciante, mestre Kempth. De nossa parte, asseguro que todos os compromissos firmados são honrados e que nos alegra enormemente contar com a amizade de pessoas tão amáveis e honradas. Nossos sinceros agradecimentos, e que esta amizade e parceria comercial dure muitos e muitos anos e nos traga muito mais momentos felizes que tristes.

 

Todos comeram, conversaram e sorriram. Sine contou algumas histórias um pouco mais íntimas da família Kempth, como a forma como conhecera seu marido, alguns fatos interessantes sobre Thomas quando era pequeno — que evidentemente o encheram de vergonha —, bem como relatos sobre seu pai e como acabaram vindo parar naquele lugar.

 

Após a refeição, Eideard convidou Sullivan e sua filha para um passeio, de forma que eles pudessem conhecer a propriedade e seu trabalho. Ofeak acabara de retirar um pedaço de aço da fornalha quando Eideard chegou com os convidados e os apresentou.

 

— Senhor Sullivan, este é Ofeak, filho de Fiornak. Mestre nas artes de moldar o aço e o ferro como nenhum outro, desde aqui até as montanhas do norte.

 

— É muita generosidade sua, mestre — respondeu Ofeak com certa vergonha. E continuou: — É uma honra conhecê-lo, mestre Sullivan. Lamento não o cumprimentar com a devida vênia, uma vez que minhas mãos estão sujas e não posso parar a malha do metal por muito tempo.

 

— Não se preocupe, meu caro. Haverá muito tempo para conversarmos. É uma honra e uma alegria conhecer alguém tão habilidoso e genial quanto o senhor — disse o senhor Sullivan, que em seguida apresentou sua filha, Zaira. Ofeak a olhou e, em seguida, olhou para o rosto de Thomas e deu um sorriso. Por fim, pareceu ter entendido o motivo do rapaz realizar aquela acrobacia e mergulhar sua cabeça na tina de água da oficina.

 

Continuaram a visitar a propriedade dos Kempth, passando pelo depósito da oficina, os estábulos, a horta e os campos de trigo e milho recém-adquiridos. Cruzaram a propriedade até chegarem à elevatória de água que construíram para irrigar outras partes da fazenda, chegando por fim ao cais e à praia. Subiram o caminho de volta à casa principal e seguiram até a casa de hóspedes, onde o senhor Sullivan ficaria hospedado por alguns dias, de forma a acompanhar o processo de criação das peças que iria vender, buscando know-how para negociar com seus clientes em potencial. Após apresentar a casa de hóspedes, já com todos os pertences do senhor Sullivan deixados pelos empregados da propriedade, Eideard disse:

 

— Bem, senhor Sullivan. Acredito que o senhor e sua filha desejam descansar mais do que qualquer outra coisa. Caso deseje uma jarra com água quente para banhar-se, por favor, solicite a um de nossos servos. Sinta-se à vontade e, se houver mais alguma coisa em que possamos ajudá-lo, por favor, não hesite em nos chamar.

 

— Mais uma vez, agradeço vossa hospitalidade e cordialidade para conosco, mestre Kempth. Acredito que, após uma boa noite de sono, estaremos completamente recuperados. Acredito que amanhã poderemos conversar mais sobre as mercadorias e seu processo de fabricação, bem como aproveitar e ir até a cidade para vermos se há mais alguma coisa que posso levar comigo para venda.

 

— Perfeito, senhor Sullivan. Muito boa tarde e uma ótima noite! — disse Eideard, seguido de um vigoroso e sincero aperto de mão. Virou-se para Zaira e disse:

 

— Muito boa tarde, senhorita Zaira. Espero que se sinta em casa. Precisando de qualquer coisa, nos avise.

 

— Obrigado, mestre Kempth, tenha uma ótima tarde e uma noite tranquila — respondeu a moça de forma suave e com uma reverência.

 

— Boa tarde, senhor Sullivan — disse Thomas com uma reverência, tentando ser o mais gentil que pudesse.

 

— Boa tarde, jovem. E obrigado por sua hospitalidade também — respondeu o Sullivan com uma reverência. Ao olhar para Zaira, Thomas sentiu-se novamente sem jeito, gaguejando levemente. Ele nunca havia conversado formalmente com uma moça tão bela antes.

 

— B-boa tarde, senhorita.

 

Zaira, de forma e com uma reverência, respondeu:

 

— Boa tarde, mestre Thomas.

 

Eideard olhou para Thomas e percebeu algo estranho. Um sorriso discreto o fez lembrar de si próprio quando, na idade de Thomas, acabava por encontrar uma jovem tão bela. Na saída da casa de hóspedes, Eideard olhou para Thomas, colocou a mão no ombro do rapaz e disse:

 

— Lembre-se de que ela é nossa convidada, filho. Trate-a com respeito e cordialidade. Você entendeu?

 

— S-sim, papai. Pode deixar. Prometo não tocá-la — respondeu Thomas, nervoso, como se estivesse recebendo uma bronca de seu pai.

 

— Não foi isso que te pedi, rapaz. Apenas a trate com respeito — disse Eideard, sorrindo do constrangimento que Thomas pensava ter causado.

 

Thomas então despediu-se de seu pai e foi até a oficina para auxiliar Ofeak em algo. Ao chegar à oficina, Ofeak estava colocando uma barra de metal na fornalha.

 

— Precisa de alguma coisa, Ofeak?

 

— Apenas de uma coisa, meu rapaz — respondeu o anão, usando seus óculos escuros de proteção e olhando fixamente para a barra de metal que agora se encontrava totalmente dentro da brasa.

 

— Sim, diga — respondeu Thomas de forma sincera e solícita.

 

— Que você aprenda urgentemente a controlar suas emoções quando estiver diante de uma mulher bonita. Acredite, a sedução é uma das artimanhas mais perigosas em que o homem pode cair. Não foram poucas as vezes em que homens de valor sucumbiram aos encantos de uma bela mulher. Cuidado!

 

— Pode deixar, Ofeak — respondeu Thomas, abaixando a cabeça.

 

— Mas não se preocupe, rapaz. Qualquer um, mesmo seu avô, balançaria diante de uma beleza tão rara quanto a da senhorita Zaira. Anime-se! Você está cada vez mais perto de se tornar um homem — disse Ofeak, com um sorriso no rosto, dando um tapa forte no braço esquerdo de Thomas, que o encolheu imediatamente para aguentar a força da pancada.

 

Thomas então foi até o estábulo exercitar-se um pouco, seguindo a rotina de treino imposta por Ofeak. Colocou vários alforjes com pedras e restos de minérios pesados em suas pernas e começou a puxar seu corpo junto com eles. Fazia dez séries com dez repetições cada. Enquanto fazia o exercício, a lembrança dos olhos e do rosto de Zaira constantemente vinha em sua cabeça, o que o desconcentrava por alguns instantes, o suficiente para, em algumas vezes, fazer com que ele perdesse a contagem de seus exercícios, obrigando-o a repetir a série. Passou ali cerca de duas horas e, já exausto, caiu no chão ao tentar andar após a última sequência. Sentia muitas dores de esforço tanto na panturrilha quanto nos músculos que circulavam a região das omoplatas, sendo quase impossível levantar. Permaneceu ali deitado até se recuperar minimamente para ir até o regato tentar esfriar os músculos com a água fria que ali corria. Recuperou-se após alguns minutos deitado e levantou-se com dificuldade. Caminhou vagarosamente até o regato, deitando na parte rasa, deixando a água fria da montanha curar suas dores. Então, no meio de suas dores, começou a refletir.

 

— “Essa senhorita mal chegou e já me trouxe problemas. Tenho que realmente ter cuidado com as mulheres, como disse Ofeak.”

 

Contudo, no instante seguinte, começava a pensar novamente no sorriso e no olhar da moça, bem como em alguns detalhes de seu corpo. Até o cheiro suave de seu cabelo e a textura de suas mãos vinham em sua mente, como que tragando seu pensamento tal qual um redemoinho num rio bravio.

 

Como se despertando de um sonho, Thomas levantou-se de súbito, com a impressão de que estava sendo observado. Seus instintos o impulsionaram para a posição de guarda imediatamente, mas nada parecia estar ali perto. Sentindo-se recuperado, tomou o caminho em direção ao bosque para a caverna onde costumava treinar todos os dias. Ofeak não estava lá naquele dia, uma vez que precisava terminar algumas peças que serviriam de mostruário para o senhor Sullivan levar em suas viagens. Usou então o tempo para praticar movimentos e posturas com sua própria sombra, seguindo as sequências e movimentos propostos no quinto tomo dos dez em sua posse.

 

O tomo quinto era aquele que falava sobre movimentos e combinações de ataques furtivos. Havia figuras que mostravam diversas chaves e movimentos a serem executados a partir das sombras. Também havia posturas em cima de árvores e objetos altos que aparentemente poderiam manter Thomas invisível numa situação em que precisasse infiltrar-se em algum lugar escondido. Também havia amostras de saltos e deslocamentos que visavam burlar armadilhas e caminhos vigiados, usando o próprio ambiente como meio de manter-se invisível.

 

Foi quando, ouvindo passos aproximando-se da câmara onde estava, utilizou uma das técnicas que acabara de memorizar, saltando e escalando as pedras como um pequeno primata, fixando-se na parte de cima de uma parede. Os passos foram se aproximando cada vez mais, aparentemente sendo guiados pela luz da lanterna que Thomas estava usando para projetar luz e sombras.

 

Os passos repentinamente pararam. Thomas continuava com a respiração imóvel, tentando reduzir o som de sua respiração o máximo possível, mantendo-se invisível até saber quem havia invadido o local. Foi então que uma figura apareceu logo abaixo. Era troncudo e portava um machado bem trabalhado. A figura entrou pela câmara, como que procurando alguém ou algo.

 

Imóvel, Thomas estava perfeitamente camuflado nas sombras. Mesmo quando a figura olhou brevemente em sua direção, não o conseguiu notar. Foi então que o rapaz saltou por detrás da figura, encaixando uma chave em seu pescoço, e gritou:

 

— Te peguei!

 

A figura então o projetou para frente, saltando com o machado logo em seguida para golpeá-lo com força. Ao ser projetado, Thomas apoiou-se no chão com uma das mãos, alterando a trajetória da projeção, usando a força do próprio arremesso para deslocar-se para a direita. O machado passou a alguns centímetros de sua perna, enterrando-se no chão onde abriu uma fenda. Caindo em guarda, com a mão direita aberta e à frente, numa postura baixa, lembrando a de um felino. A figura retirou o machado do chão e disse:

 

— Da próxima vez que você quiser me dar um susto, ao menos avise-me que irá tentar. Assim, não irei relutar em cortar você ao meio quando tiver a oportunidade — disse Ofeak em tom repreensivo ao rapaz.

 

— Desculpe, professor. Mas, admita, o senhor não tinha ideia de onde eu estava.

 

— Claro que sabia. Você acha mesmo que eu não o havia visto escondido logo ali atrás daquelas lanças de calcário no chão?! Ora, faça-me o favor, rapaz. Agora venha. Já está tarde, e seu pai vai dar falta da sua presença no jantar.

 

Thomas sorriu e seguiu Ofeak de volta, que havia colocado seu machado no ombro enquanto caminhavam de volta à propriedade. Thomas aproveitou para contar sua evolução no treino daquele dia e as coisas que havia conseguido fazer. Ofeak lhe deu alguns conselhos sobre manter-se invisível — apesar de os anões serem conhecidos por serem péssimos na arte de ocultar-se —, relembrando algumas vezes em que ele e seu mestre haviam se metido em situações em que precisavam manter-se discretos e invisíveis.

 

Assim, chegaram à casa principal para jantarem. Sullivan e Zaira não estavam presentes. Provavelmente, preferiram uma refeição mais leve e o descanso após um dia estafante de viagem. Os Kempth jantaram, e Eideard dividiu os planos que fizera com o mercador, de forma que este pudesse pegar suas mercadorias e vender em regiões longínquas, onde passaria alguns anos vagando a buscar encomendas, realizar pequenas vendas até o estoque se esgotar e este voltar para buscar mais mercadorias. O acordo previa que Sullivan deixaria metade do valor devido a Eideard em sua partida e retornaria com a outra metade quando voltasse em busca de novas peças e encomendas.

 

O agora patriarca dos Kempth parecia muito satisfeito com a parceria e confiante. Desejava expandir seus negócios e, quem sabe, conseguir uma forma de mudar-se para algum outro lugar, uma vez que, a cada dia, as coisas pareciam ficar mais e mais estranhas no arquiducado de Suoia.

 

No fim do dia, Thomas deitou-se e, com os músculos ainda doloridos, levou seu pensamento mais uma vez à bela Zaira e ali ficou por alguns instantes com seu sorriso e seu olhar no pensamento até cair em sono profundo.

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