Capítulo 5: Os Mogunes

Capítulo 5: Os Mogunes

Aug 17, 2026
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Cerca de um ano e meio passara-se desde que Thomas havia encontrado os livros. Seu treinamento diário o fez reproduzir com fidelidade cada movimento que estava no primeiro tomo que escolhera para treinar. Era capaz de realizar movimentos extraordinários, como chutes circulares e aéreos, sequências de múltiplos socos alternados com defesas e movimentos diversos com as pernas e os braços. Ofeak, que acompanhava de perto o desenvolvimento do menino, surpreendia-se com a sua capacidade de absorver os movimentos apresentados nos livros e sua dedicação nos exercícios passados. Era como se uma força interna muito poderosa movesse o menino para o conhecimento e o aprendizado das artes marciais.

 

Para auxiliá-lo, Ofeak criou instrumentos e aparelhos improvisados para ajudar o menino a aplicar os conhecimentos adquiridos em diferentes circunstâncias, além de forçar os músculos do menino ao máximo em atividades que o tornavam cada vez mais forte física e mentalmente. Desde abdominais nos caibros do telhado da parte de trás de sua casa, flexões com uma mão e muitas outras coisas, sempre dificultadas com o passar do tempo. Chegou a criar um equipamento composto por duas varas de bambu com o que pareciam ser pequenas trouxas de panos amarradas à ponta, simulando um punho. Ficava diante do garoto, circulando e tentando acertá-lo, de maneira que Thomas precisava defender-se e contra-atacar.

 

Ninguém sabia muito bem o motivo pelo qual Thomas era tão aplicado nos treinos. Sua vontade de tornar-se forte era firme, e sua decisão em conhecer cada vez mais as técnicas contidas naquele livro era como um grande chamado a algo muito maior, mas que nem ele mesmo sabia bem o que. Até mesmo seus sonhos estranhos haviam diminuído. Talvez pelo fato de ele estar sempre muito cansado na hora de dormir.

 

Nenhuma encomenda veio da capital desde a última visita dos Kempth no ano anterior, até que, no fim do verão, um pedido de novas peças específicas do mecanismo que erguia as grades elevatórias de alguns níveis mais internos da cidadela da capital chegou. Essas engrenagens permitiam subir e descer as grades, que deviam ser arriadas todas as noites e suspensas todas as manhãs. Eideard pareceu relutante com a encomenda, mas, como devia tributos em serviços ao arquiduque, acabou sendo obrigado a aceitar a oferta. Como tinha muitas outras coisas para fazer e entregar na cidade em poucos dias, pediu a Ofeak que fizesse a entrega enquanto terminava de fazer as demais encomendas.

 

Cerca de duas semanas depois, concluída a construção das peças, o anão saiu logo cedo, buscando realizar a entrega o mais breve possível para retornar. Passados cinco dias, Ofeak retornava, mas algo parecia estar diferente. Estranhamente, a carroça havia voltado com mais coisas cheias do que partira. Thomas foi receber seu amigo e instrutor, quando este parou próximo ao galpão da oficina.

 

— Boa tarde, Ofeak! Como estás?

 

— Estou bem, meu rapaz. E você? Fez a sequência de movimentos que te pedi?

 

— Sim, eu fiz. Também dei uma olhada no livro, mas deparei-me com uma situação complicada — respondeu Thomas com um ar um tanto triste e preocupado.

 

— O que aconteceu? — perguntou Ofeak com ar de estranheza.

 

— O livro que estou estudando agora mostra várias sequências de combates com múltiplos atacantes. E parece não se tratar de silhuetas ou combates simulados como os outros. Parecem ser inimigos reais. O problema é que não tem mais ninguém aqui além de você e eu. Como iremos repetir os movimentos?

 

— Bem, meu jovem. Se o seu problema é combater múltiplos inimigos, acho que ele estará resolvido em breve — respondeu Ofeak, enquanto desatava o cavalo da carroça para levá-lo ao estábulo.

 

— Como assim? — perguntou Thomas, confuso pela resposta.

 

— Você saberá em breve. Agora vá e traga seu pai. Preciso falar com ele a sós.

 

— Está bem, Ofeak — disse o menino, ainda mais confuso do que quando viera falar com seu instrutor. Foi até seu pai, que naquele momento estava descansando em sua cama após uma sequência de dias em que não tinha seu servo para auxiliá-lo nos afazeres da forja. Tentou despertá-lo com cuidado, mas não houve jeito. Eideard acordou com um susto e logo saltou da cama.

 

— Boa tarde, papai — disse Thomas, envergonhado.

 

— É você, filho. Nossa, parecia que alguém havia me dado um tapa no braço — disse Eideard, após alguns instantes tentando recompor-se do susto.

 

— Tudo tranquilo, pai. Ofeak acabou de chegar e disse que gostaria de falar com o senhor em particular — disse Thomas, ainda um tanto envergonhado por acordar seu pai repentinamente.

 

— O que aconteceu? — perguntou Eideard, tomando seu avental de ferreiro e colocando-o.

 

— Não sei, papai. Ele apenas me pediu para enviar o recado para o senhor — respondeu Thomas, ainda com a cabeça baixa.

 

— Certo. E onde ele está? — perguntou Eideard, terminando de colocar seu avental.

 

— Estava colocando os cavalos no celeiro — respondeu o menino.

 

— Obrigado pelo recado, filho. Deixe-me ver o que está acontecendo — disse Eideard, acariciando a cabeça de Thomas e seguindo para fora para encontrar seu amigo.

 

Chegando ao estábulo, Eideard encontrou Ofeak terminando de colocar feno para alimentar os animais após a longa viagem. Thomas ficou ao longe, sentado na porta principal de sua casa, observando a conversa. Enquanto Ofeak falava, Eideard encostou-se no batente da porta com os braços cruzados, olhando atentamente para o anão, colocando a mão na barba em alguns momentos, fazendo alguns gestos e acenos em outros, até que se virou com as mãos na cintura e abaixou a cabeça, deixando o local enquanto Ofeak entrou no celeiro.

 

Eideard foi para a oficina, e Thomas achou por bem ir falar com seu pai para tentar saber o que estava acontecendo. Chegou de mansinho, sem fazer muito alarde, encontrando seu pai separando alguns instrumentos com os quais iria afiar alguns cutelos e facas que venderia no dia seguinte na cidade de Hillfar. Entrou na oficina e gentilmente perguntou a seu pai:

 

— Papai, está tudo bem?

 

— Oi, filho, estás por aí? Sim, está tudo bem. O que desejas? — disse Eideard em meio a alguns suspiros.

 

— Eu vi que o senhor conversava com Ofeak. Aconteceu alguma coisa? — perguntou Thomas, tentando entender o que poderia estar deixando seu pai apreensivo. Então Eideard olhou em direção à parede onde estavam a bancada e as ferramentas e, com os olhos marejados, começou a tentar controlar-se.

 

— Não aconteceu nada… Não se preocupe. Ficará tudo bem.

 

Thomas notou as palavras presas na garganta de seu pai e logo o abraçou e, tentando consolar seu pai, disse:

 

— Não se preocupe, papai. Já sou um homem crescido. Se quiser, pode falar comigo o que o entristece.

 

Eideard deu um sorriso, vendo a generosa e honrosa intenção de seu filho em tentar acalmá-lo. Virou-se para Thomas e, agachando-se, disse:

 

— Veja você, agora, se eu agachar, você fica maior do que eu. Em breve realmente terei que falar contigo em pé. Você está crescendo rápido, filho. Está se tornando um bom homem, e isso me deixa muito feliz — disse Eideard, abraçando seu filho com todo o amor que um pai pudesse transmitir. E continuou:

 

— Ofeak trouxe notícias sobre seu irmão. Ele foi designado para as fronteiras a nordeste do reino. Parece que ele se destacou em seu treinamento e foi indicado para ser sargento em um esquadrão especial, formado pelos melhores de cada ano de treinamento, e que normalmente era enviado para as missões mais difíceis e perigosas nas frentes de batalha.

 

— É mesmo, papai! Nossa, o senhor deve estar muito orgulhoso! — disse Thomas, muito empolgado em saber tão boas notícias sobre seu irmão. Porém, Eideard não demonstrava a mesma alegria. Sabia que as missões para as quais Turiau poderia ser designado quase sempre significavam que seus executores jamais voltariam para casa? Eideard então olhou para Thomas e, com um sorriso rápido, deu um beijo em sua testa. O garoto então perguntou:

 

— E quando ele volta para casa?

 

Eideard viu seu coração novamente apertado quando Thomas fez essa pergunta. Pensou no que deveria falar para não chocar seu filho, mas achou melhor partir para uma abordagem mais sincera:

 

— Não sei, filho. Seu irmão agora é um soldado especial. Ele deve cumprir com seu dever para com o arquiducado, assim como você deve cumprir seu dever aqui conosco. A propósito, vá até sua mãe, peça-lhe para encher de água e traga de volta — disse Eideard, entregando uma cabaça vazia e esperando que o garoto a retornasse com água própria para que tanto ele quanto Ofeak bebessem enquanto trabalhassem até o fim da tarde. Thomas foi até sua mãe e pediu para ela encher a cabaça e, quando voltou, viu Ofeak saindo novamente com a carroça. Chegando novamente à oficina, perguntou a seu pai:

 

— Por que Ofeak saiu novamente com a carroça, papai? Aconteceu alguma coisa?

 

— Ele foi resolver um assunto particular e volta em breve, filho. Não se preocupe — disse Eideard, tranquilizando o rapaz e pegando a cabaça com água, com a qual encheu um copo e bebeu em seguida, perguntando depois se Thomas queria um pouco. Eideard pediu para que o menino o ajudasse em mais alguns afazeres na oficina na parte da tarde, especialmente misturando e peneirando areia ferrosa que seria utilizada por seu pai para forjar barras e outros componentes. Já no cair do sol, viu Ofeak retornando e levando a carroça diretamente para o estábulo. Terminou de realizar a tarefa solicitada por seu pai e foi falar com Ofeak. Afinal, era quase noite e nada havia praticado de seus estudos marciais. Viu o anão saindo do estábulo e, dirigindo-se em sua direção e acenando, disse:

 

— Olá, Ofeak! Como estás?

 

— Olá, garoto. Estou bem, apesar do cansaço. E você? O que tem feito?

 

— Hoje passei o dia ajudando o papai nos afazeres da oficina.

 

— Hum… Muito bem, meu rapaz! Ajudar seu pai nos afazeres da oficina é a primeira tarefa que você sempre deve desempenhar até que lhe seja designada outra mais importante.

 

— Sim, Ofeak. Sei bem disso. Mas, e você? Vi que você saiu novamente com a carroça — perguntou o curioso rapaz.

 

— Fui resolver algo importante agora à tarde que diz respeito a você — respondeu o anão, terminando de amarrar a carroça no estábulo.

 

— A mim? Como assim? — perguntou novamente o garoto, completamente confuso.

 

— Amanhã levantaremos cedo. Tenho que te mostrar uma coisa. Nos encontramos na frente da oficina assim que o sol estiver completamente visível no céu. Entendido? — instruiu Ofeak, sem dar muitos detalhes. Pegando algumas coisas no chão e dirigindo-se para a oficina, ele complementou:

 

— Recomendo que durmas cedo hoje. Seu dia amanhã será muito puxado. A propósito, venha comigo até a oficina — disse Ofeak, acenando para o menino segui-lo até a parte da oficina onde funcionava um pequeno ateliê. Era onde peças que precisavam de revestimento de couro ou lã, como assentos novos para carroças e carruagens e revestimento nos arreios dos cavalos de tração, eram preparadas. Chegando ao local, o anão começou a fazer o que parecia ser algumas medições no menino com uma fita de couro de cabra. Mediu o tamanho de seu braço, de sua mão, de suas canelas e, por fim, de sua cabeça. A cada medida, ia anotando em uma pequena tábua com um pedaço de prego o que pareciam alguns rabiscos que provavelmente só o anão saberia identificar. Então o anão disse:

 

— Pronto. Agora vá para sua casa e lembre-se: amanhã, assim que o sol estiver acima das montanhas a leste. Encontre-me aqui. Estarei te esperando.

 

— Pode deixar, Ofeak — prometeu o rapaz, balançando a cabeça positivamente e logo em seguida indo para sua casa, sem entender nada do que o anão havia feito.

 

O sol descia nas montanhas, e a noite vinha chegando de mansinho quando Thomas entrou em sua casa para jantar. Cumprimentou sua mãe, que lhe deu um beijo na testa, e também a seu pai, que, de pé e olhando para fora da casa, continuava triste devido às notícias sobre Turiau, apesar de buscar em algum canto de sua alma alguma fé que pudesse dizer-lhe que seu filho estava bem e seguro. Thomas percebeu mais uma vez que seu pai estava sofrendo de alguma forma e tentou acalentá-lo com um abraço. Eideard retribuiu o carinho do menino com outro abraço.

 

Todos jantaram naquela noite em meio a um silêncio incomum, especialmente Eideard, que comera pouco e logo em seguida se levantou para deitar. Sine esperou Thomas terminar de comer e levantou-se, dizendo:

 

— Vamos, filho. Ajude-me a retirar a mesa do jantar.

 

Thomas obedeceu à sua mãe de imediato e, enquanto a ajudava, perguntou:

 

— Mamãe, por que o papai está assim tão triste? Pelo que ele me disse, Turiau foi para uma unidade importante dentro da guarda Arquiducal. Não entendo o motivo dele estar assim tão triste.

 

— Seu pai teme perder seu irmão numa batalha, filho. Infelizmente, isso é muito comum de acontecer nas frentes mais perigosas para onde seu irmão foi enviado.

 

— Mas meu irmão é muito forte e habilidoso com as armas. É impossível ele se perder onde quer que seja — disse Thomas, confuso e plenamente convicto das capacidades extraordinárias de seu irmão.

 

— Claro, filho. Sabemos disso. Mas, de qualquer forma, seu pai fica preocupado. Esperemos que não haja motivos para preocupações e que em breve o vejamos novamente, são e salvo — disse Sine, agachando-se e colocando a mão no rosto de Thomas em meio a um lindo e amoroso sorriso materno. E complementou:

 

— Agora vá dormir. Já está tarde. Ofeak me disse que precisava de você acordado amanhã cedo. Então, trate já de ir para a cama.

 

— Está bem, mamãe. Boa noite e mande um beijo para o papai. Sei que ele está triste por conta das notícias sobre meu irmão, mas ele ainda tem a senhora e a mim.

 

No dia seguinte, logo cedo, Thomas despertou e levantou-se um pouco depois da aurora. O sol ainda não havia levantado sobre as montanhas quando Thomas tomava seu café e pensava em tudo que havia ouvido no dia anterior. Pensou também nas palavras de Ofeak sobre uma propensa solução ao problema de treinar contra múltiplos alvos simultâneos, conforme as gravuras do livro que estudava naquele momento indicavam:

 

— “Como poderei combater com três ou quatro oponentes ao mesmo tempo para praticar aquelas sequências se aqui há apenas eu e o Ofeak?” Será que precisarei encontrar outras pessoas para me ajudar no treinamento?

 

Começou a cogitar se os netos do velho Townber, Yancan e Johcan, aceitariam participar de alguns treinamentos para que ele pudesse praticar. Afinal, eles eram mais ou menos da mesma idade de Thomas e pareciam se dar muito bem nas poucas vezes que se encontravam durante o ano nos festivais de primavera em Hillfar.

 

O tempo passou enquanto Thomas se perdia em pensamentos de como seriam os exercícios do treinamento com seus amigos e como seria divertido vê-los carregando baldes de água com os braços esticados, terem suas pernas esticadas ao máximo e outras coisas que Ofeak obrigava o garoto a realizar como parte de seu treinamento. Foi quando Ofeak apareceu na porta da cozinha da casa, onde Thomas ainda estava sentado, olhando para o nada.

 

— Ei, garoto! O que eu havia combinado contigo? Há quase uma hora te espero no local combinado.

 

— Nossa! Perdoe-me, Ofeak. Acordei cedo, mas acabei perdendo-me nos pensamentos.

 

— Isso é muito mal, meu rapaz! Nunca se deixa alguém esperando quando se combina um horário. Ainda mais um professor ou alguém a quem você deve respeito ou obediência — repreendeu severamente o anão, como já lhe era de hábito. E continuou, enquanto entrava pela casa em direção ao quarto de Thomas:

 

— De qualquer forma, teríamos que vir aqui mesmo. Venha, me ajude a pegar o baú com seus livros.

 

— O baú? Para que você o quer, Ofeak? — perguntou Thomas, confuso.

 

— Não faça perguntas tolas. Apenas obedeça. Lembra-se da primeira regra? Agora venha e me ajude — respondeu o anão de forma seca e áspera. Thomas não se atreveu a retrucar seu professor, ainda mais depois de deixá-lo esperando por tanto tempo.

 

Ofeak, que já carregava atravessada no corpo uma bolsa de pele cheia de alguma coisa volumosa, pegou o baú em uma ponta e Thomas na outra. O anão foi à frente, conduzindo o garoto. Passaram pela porta da cozinha, que já estava aberta, tomando o caminho à direita em direção ao Regato dos Viajantes. Desceram pelo caminho estreito e, ao chegar à pequena praia onde havia o pequeno píer, seguiram em frente até um pequeno banco de areia que ali havia, suficiente para atravessarem o riacho. Tanto Thomas quanto Ofeak ficaram com água pelo peito, o que os obrigou a levantar o pesado e grande baú acima de suas cabeças. Thomas, que estava atrás, fazia um grande esforço para sustentar o baú ao mesmo tempo em que tentava equilibrar-se ao caminhar pelos cascalhos no fundo do regato e também para não ser desequilibrado pela corrente de água fria, que estava acelerada naquele dia devido a alguma chuva que caíra há alguns dias nas montanhas.

 

Atravessaram o regato e adentraram na floresta. Poucas eram as folhas verdes nas árvores nessa época do ano. Faiais, bordos e bétulas começavam a perder suas folhas, o que indicava que, dali a mais ou menos um mês, o inverno começaria. Os arbustos também começavam a secar, o que dificultava bastante a locomoção dos dois pelo terreno, já naturalmente acidentado. Chegaram a uma pequena trilha de cabras que parecia vir da estrada, mas bem estreita. Não demorou muito para que chegassem a duas pedras grandes, separadas por uma pequena fenda por onde a trilha descia abruptamente num pequeno barranco. Do lado direito, grandes carvalhos e bordos formavam uma fileira de troncos altos, antecipando uma infinidade de árvores, arbustos e musgo que se seguia a oeste e a noroeste, montanha acima, enquanto uma ribanceira do lado direito com árvores frondosas criava um labirinto natural que facilmente levaria um caminhante desavisado a perder-se. Ofeak e Thomas passaram com dificuldade por entre as grandes rochas com o baú. As rochas tinham um formato ovalado que lembrava dois grandes ovos de ganso colocados um ao lado do outro. Ao mesmo tempo em que o interior da fenda era serrilhado, como se alguém, há muito tempo, houvesse talhado aquela passagem. Contudo, as pedras nitidamente eram distintas, apesar de a passagem ter cerca de dois metros e meio de altura.

 

Ofeak e Thomas conseguiram passar, com certa dificuldade, pela passagem com o grande baú. Desceram a trilha e logo subiram novamente um pequeno trecho. A trilha seguia para o norte e depois para o nordeste, em direção às montanhas, mas o anão dobrou à direita quando chegou até o que parecia um corredor formado por algumas faias e bordos, subindo e adentrando a floresta. A esta altura, Thomas estava completamente perdido, visto que nunca havia estado naquele canto da floresta antes. Já não tinha muita noção para que lado ficava sua casa ou mesmo a estrada principal que descia as montanhas em direção à capital.

 

Subiram mais um pouco e logo chegaram a um lugar que deixou Thomas completamente encantado. Tratava-se de uma longa cascata que descia das grandes montanhas por uma série de degraus formados por pedras. Formando na sua base uma delicada cortina de água pura e cristalina, desaguando no que parecia ser uma piscina natural de águas muito claras. Um campo com muitas flores de lavanda, forrado por grama verde e macia e cercado de árvores frondosas que cercavam o local, concedia ao lugar uma beleza mágica. Na época da primavera, flores, ervas e pássaros enchiam o lugar de cores, sons e cheiros maravilhosos. Por alguns instantes, Thomas parou boquiaberto. Ofeak sentiu que o garoto parou e logo tratou de chamá-lo de volta a si.

 

— Vamos, garoto, terás muito tempo para apreciar a vista depois. Precisamos seguir agora — disse o anão, enquanto puxava o baú na tentativa de chamar a atenção do menino, quase em transe diante de tão magnífica paisagem.

 

— Ah, sim! Vamos seguir, Ofeak — disse Thomas, voltando a si, continuando a caminhar, mesmo que olhando para aquela vista à sua volta.

 

Seguiram em direção à lateral direita da cachoeira, onde havia algumas pedras que formavam um degrau para uma plataforma que passava por trás da queda d’água. Thomas e Ofeak passaram por aquela plataforma que dava para um grande salão. Tratava-se de uma gruta grandiosa e totalmente encoberta pela cascata, formando uma parede de água que descia sem cessar. No fundo deles havia passagens que se comunicavam com outros salões não tão grandes quanto aquele em que estavam. As paredes desse local eram de um azul escuro e cintilante. Veios dourados e prateados podiam ser vistos em alguns pontos, juntamente com outros veios verdes claros e escuros. A parte superior da gruta refletia a luz que vinha pela cachoeira, formando um verdadeiro “arco-íris” com os minerais incrustrados na parede da caverna, que brilhavam e resplandeciam múltiplas colorações que variavam conforme a posição de quem os olhava dentro da caverna.

 

No fundo da gruta, Thomas viu algo que o assustou num primeiro momento. Cinco cobertores de lã velhos e rasgados cobriam o que pareciam ser figuras eretas. Ofeak orientou Thomas a colocar o baú no fundo da caverna, num lugar seco e coberto por pedras que absorviam a umidade próxima, de forma a proteger o papel dos livros e o próprio baú da umidade do local.

 

— Pronto, aqui está. Aqui isso ficará seguro e seco — disse Ofeak quando finalmente colocaram o pesado baú em seu lugar.

 

Thomas ficou olhando admirado a gruta, em todo seu esplendor e beleza. Mas logo deu de cara com as figuras cobertas pelos panos velhos. Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, Ofeak o chamou e pediu para que ele o ajudasse com algumas coisas. A primeira delas era colocar algumas lanternas que havia feito pelo salão, de forma a melhorar um pouco a iluminação. Tratava-se de lanternas translúcidas feitas de ferro e tecido de cabra, que permitiam uma excelente iluminação sem ter a chama exposta. Tinham uma portinhola que servia para acender ou apagar a chama, gerada por um pavio feito com sobras de linho e algodão embebidos em azeite, o que gerava uma grande quantidade de luz por muito tempo. Colocou-as em algumas hastes para serem fixadas nas reentrâncias das paredes da gruta.

 

Thomas distribuiu as lanternas e as acendeu. A luz delas conseguia iluminar uma boa porção escura da caverna, revelando detalhes ainda mais belos. Linhas horizontais formavam verdadeiras pinturas nas pedras, exibindo diversos e diferentes tons. Thomas foi até Ofeak, que parecia estar separando algumas coisas da bolsa que havia trazido, e disse:

 

— Ofeak, que lugar é este? Nunca poderia imaginar um lugar tão incrível como este aqui por perto.

 

— Este lugar? Bem, de fato é realmente uma beleza. Especialmente as pedras daqui. Nas primeiras vezes que vim até aqui, passei alguns dias esquadrinhando cada centímetro de rocha, desde a entrada até o fundo desta gruta e os salões além. Nós, anões, amamos as pedras e o fundo da terra. E, acredite, tenho certeza de que poucos anões puderam ver um lugar tão belo quanto este. Chamei este lugar de Gruta das Mil Cores. Espere até o sol se pôr, e você vai ver do que estou falando — disse o anão, olhando em volta e com um sorriso discreto no rosto.

 

— E como você encontrou isso aqui? — perguntou o menino, também olhando em volta as belas formações rochosas.

 

— Bem, estava com seu pai explorando a área para ampliarmos a propriedade quando nos deparamos com a cachoeira. Seu pai percebeu aquela plataforma enquanto observava a beleza do lugar, e nos aventuramos a entrar por debaixo dela. Percebemos que a cobertura da rocha não nos permitiria ser atingidos pela água, e logo depois da passagem avistamos esse magnífico espaço em que estamos — disse Ofeak, primeiro apontando para a plataforma e depois abrindo os braços com as mãos abertas, enquanto girava como que apresentando aquele lugar majestoso na visão de um anão.

 

Então, Thomas perguntou:

 

— Ofeak, o que são estas coisas aqui cobertas?

 

— Isto? Ah, sim, já ia me esquecendo — disse Ofeak, dirigindo-se a uma das figuras e puxando o pano que a encobria.

 

Tratava-se de uma figura humanoide, idêntica a um manequim, que representava muito bem um ser humano. Era feita sobre uma estrutura do que parecia ser um aço muito duro e pesado, revestida por uma madeira lisa, muito bem polida, mas nitidamente grossa e rígida, com o que parecia ser um verniz claro que ressaltava os sulcos marrons dos troncos, que foram cortados com grande precisão para construir aquele artefato. Não possuía olhos, boca, nariz, orelhas ou cabelo, apesar de suas proporções serem precisamente as de um homem. Seus pés também não possuíam dedos, fazendo lembrar que eles estivessem sempre calçados. Contudo, todas as demais articulações estavam presentes, inclusive os dedos, pulsos, cotovelos, ombros, joelhos e quadril.

 

Thomas ficou maravilhado com aquela figura. Nunca havia visto nada sequer parecido com aquilo. Exclamou de forma suave, enquanto dava uma volta no boneco para observar melhor cada detalhe.

 

— Nossa, Ofeak! Que fantástico! Mas, o que é isso?

 

— Isso é um moguni — respondeu Ofeak, com os braços cruzados.

 

— Moguni? — redarguiu Thomas.

 

— Isso. Eram usados nos treinamentos da guarda arquiducal. Trata-se de um presente dado pelos gnomos do norte para o arquiduque Venceslav após eles o acolherem em Suoia. Fizeram dezenas desses bonecos e nos deram. Os chamavam de mogunis, algo como “marionete automática para treinamento de infantaria leve” em sua língua. Os gnomos dão nomes muito complexos às coisas e acabam precisando juntar palavras umas nas outras para comporem definições e depois as abreviam o melhor possível — respondeu o anão, tentando contar um pouco da história da origem daqueles aparelhos.

 

— Mas como você conseguiu um deles?

 

— Um não. Cinco. Estão todos ali cobertos. Enfim, quando fui a Salaluvaa nesta última viagem, passei na guarda para ter notícias sobre seu irmão e trazer a seu pai. Foi quando vi uma pilha gigantesca de mogunis quebrados e outros já sendo colocados em uma grande fogueira. Perguntei ao oficial da guarda o que estava acontecendo, e ele disse que os mogunis deveriam ser destruídos, uma vez que não haveria mais necessidade de usá-los. Disse que os novos instrutores que foram designados na academia não entendiam os benefícios de usar tais bonecos para o treino e ordenaram sua destruição. Ainda faltavam cinco para serem desmontados e destruídos, e eu pedi para levá-los comigo, evitando que fossem destruídos.

 

Thomas, já bem curioso, perguntou a Ofeak:

 

— E como eles funcionam?

 

— Simples — respondeu Ofeak, dirigindo-se até o baú e pegando um livro. Folheou algumas páginas e foi até o moguni, dizendo ao garoto:

 

— Observe.

 

Então, Ofeak abriu uma pequena portinhola embutida nas costas do moguni, suspendendo-a para cima. Uma luz forte então surgiu, proveniente do que parecia um cristal cilíndrico. Ofeak então colocou a página do livro em frente à luz, que piscou brevemente, batendo uma palma logo em seguida. Virou a página do livro e mostrou novamente outra gravura, batendo duas palmas em seguida. Depois, fechou a portinhola, apagando a luz por completo, dando a impressão de que ela não existia, dada a justaposição daquela obra de engenharia formidável que somente um gnomo do norte seria capaz de realizar. Feito isto, o anão dirigiu-se a Thomas e disse:

 

— Pronto. Agora, vá até ali e fique de frente para o moguni.

 

Thomas dirigiu-se até a posição indicada, ficando na frente do manequim, que permanecia de pé e completamente estático. Ofeak então lhe ordenou:

 

— Vamos, agora entre em posição de combate!

 

Thomas então tomou uma base com joelhos flexionados, com a perna esquerda à frente e a direita servindo de apoio e alavanca para impulso. Colocou o braço esquerdo à frente, com a mão ligeiramente aberta para fechar o corpo de ataques eventualmente desferidos em seu abdômen, e a direita erguida até mais ou menos a altura do queixo, protegendo o restante de seu corpo e seu rosto. Ofeak então perguntou:

 

— Está pronto?

 

— Pronto para o quê? — perguntou o menino, no mesmo instante em que Ofeak bateu uma palma. Imediatamente o moguni, numa velocidade inacreditável, desferiu um poderoso soco na direção de Thomas. Tratava-se de um soco reto, com uma base rígida da perna direita ligeiramente flexionada e a perna esquerda totalmente esticada, o que daria maior impulso. O soco desferido foi reto e preciso na direção do estômago de Thomas. A mão esquerda levada à cintura finalizava a exata reprodução da figura que Ofeak havia colocado na frente da luz que saía das costas do manequim.

 

Ao receber o golpe, mesmo numa grande velocidade – certamente maior do que qualquer atacante habitual seria capaz de fazer –, o menino teve um de seus “flashs” e instintivamente tomou uma posição de defesa, desviando com a parte externa do braço esquerdo o golpe. Contudo, graças ao peso descomunal e ao revestimento de madeira dura do moguni, acabou machucando-se.

 

Logo no instante seguinte, Ofeak bateu duas palmas e o boneco rapidamente desferiu um poderoso soco com a mão esquerda. Thomas sentiu o primeiro golpe e, mesmo que o flash tenha vindo em sua mente com a exata defesa que deveria realizar, foi incapaz de mover sua mão direita para repelir o ataque. O moguni abriu a mão poucos instantes antes de acertar Thomas, retraindo os dedos, de forma que apenas a palma de sua mão tocou no menino. Isso foi o suficiente para arremessar Thomas a uma distância de cerca de dois metros e meio para trás, fazendo-o cair no chão liso da caverna.

 

Com muita dor na barriga, Thomas contorcia-se no chão e com muita dificuldade para respirar. Lentamente o moguni voltou à posição inicial, ereto e com os braços junto ao corpo. Ofeak então deu algumas risadas e foi até Thomas, ainda caído no chão.

 

— Vamos, garoto! Levante-se. Nem foi tão doloroso assim.

 

Thomas, ainda sem ar, olhava para Ofeak, sem conseguir sequer proferir uma palavra. O anão ajudou-o a levantar-se e o ajudou a chegar próximo de onde estava a bolsa de pele.

 

— Não se preocupe, meu caro. Isso serve para você ver o quanto esse equipamento pode ser perigoso se você não souber direitinho como operá-lo. Exatamente por isso que eu passei a noite inteira fazendo isso aqui para você — relatou Ofeak, retirando da bolsa alguns apetrechos que havia feito no dia anterior. Tratava-se de alguns equipamentos de proteção. Primeiramente, o que parecia ser um capacete de couro com uma armação de aço muito resistente na fronte, lembrando um elmo de cavaleiro, só que, em vez de ser todo fechado com uma pequena fresta para os olhos, tinha uma grade com uma haste côncava de aço na vertical e diversas outras na horizontal, formando o que parecia ser os sulcos de uma folha, permitindo que Thomas pudesse ver amplamente, uma vez que a grade ia até a lateral de sua cabeça, fechando-se numa outra estrutura de ferro que cobria seu rosto. Em seguida, Ofeak retirou um par de luvas que ia até o cotovelo, feitas de couro curtido e lã grossa, deixando expostas apenas a ponta dos dedos para maior liberdade de movimentos. Esta luva possuía também placas de ferro grosso por entre as camadas de couro e lã. Um par de caneleiras que cobriam até o peito do pé, semelhantes às luvas, também foi retirado e, por último, mas não menos importante, uma proteção completa para o tórax de Thomas. Foi então que o anão se afastou e disse:

 

— Vamos, agora coloque isto. Vai absorver os impactos dos ataques dos mogunis. Mas não pense que este equipamento irá te proteger completamente. Isto é provisório. Com o tempo e o treinamento, espero que você não precise mais usar nada disso e resista aos golpes com seu próprio corpo. O segredo aqui é desenvolver a musculatura de seus braços e pernas, e é por isso que, a partir de agora, você usará esses pesos no braço. Quanto maior você for ficando, mais pesos eu vou adicionar. Até que você consiga resistir aos ataques sem precisar deles e tenha a mesma velocidade de ação e reação dos bonecos. Até lá, você sentirá muita dor. E será muita dor mesmo, acredite!

 

Thomas então começou a vestir o equipamento. Sentiu-se desconfortável, especialmente quando calçou as luvas e a proteção para as pernas. Seus movimentos ficaram muito mais lentos, dado o peso das placas. Também a proteção do corpo e da cabeça eram pesadas, o que dificultava e muito seu equilíbrio. Ofeak então mandou ele voltar para a posição, pois iria repetir o exercício. Quando o rapaz chegou à posição indicada, o anão lembrou-se de algo importante e disse:

 

— Espere, Thomas. Havia me esquecido de uma coisa. Vamos, fique ereto, com as mãos juntas ao corpo e não se mova. Preciso ajustar uma coisa aqui.

 

O menino fez o que seu professor ordenou, e Ofeak, usando um caixote que trouxera no dia anterior como apoio, retirou a parte da frente do rosto do moguni, revelando duas lentes, uma vermelha e outra verde, colocadas uma abaixo da outra. Então, Ofeak bateu uma palma e colocou-se logo atrás do moguni, batendo uma sequência de palmas (cerca de quatro palmas num ritmo específico). Duas luzes, uma verde e outra vermelha, foram projetadas em Thomas, e elas ficaram subindo e descendo numa cadência rápida e alternada, ou seja, enquanto uma subia, a outra descia e vice-versa. Isso durou cerca de dois ou três segundos. Em seguida, o anão subiu novamente no caixote e recolocou a máscara no rosto do manequim. Alguns instantes depois, o manequim esticou os braços, afastando-os do corpo, começando um processo de ajuste de altura e envergadura. Tanto as partes de aço quanto as partes de madeira iam se sobrepondo, de forma a se compactarem até ficarem mais ou menos na mesma altura de Thomas.

 

— Pronto. Agora o moguni está exatamente do seu tamanho. Isso facilitará seu treinamento. Conforme você for crescendo ou eu precisar treinar um combate contra um inimigo maior ou menor, conseguirei regular — disse Ofeak, enquanto colocava o caixote num canto. Em seguida, ele disse:

 

— Pois bem, garoto. Hoje você treinará com o seu novo parceiro. Preparado?

 

— Sim. Pelo menos eu acho — disse Thomas, colocando-se em posição de combate, mas nitidamente intimidado pela máquina.

 

— Muito bem. Vamos começar. — Ofeak então pegou um livro, levantou a portinhola do moguni e começou a preparar uma sequência de movimentos.

 

Em seguida, colocou o livro sobre o baú e começou a bater palmas. Cada palma indicava um movimento, o qual Ofeak ia intercalando. O moguni ia respondendo às palmas, executando com precisão os movimentos indicados, enquanto Thomas ia desviando deles e contra-atacando conforme as instruções que tanto praticara durante aquele ano. O moguni comportava-se como um verdadeiro guerreiro, o que fazia com que Thomas utilizasse toda sua força e preparo. Devido ao peso extra das placas em seus braços e pernas, logo estava muito cansado. O feak não aliviava em nada para o rapaz, que continuava a combater mesmo cansado e com os braços e pernas doloridos.

 

— Vamos, garoto! Força! Se ficar cansado numa luta e seu inimigo perceber, você será trucidado. Mantenha-se firme, sem demonstrar dor ou fadiga, ainda que seus músculos estejam se dilacerando — dizia Ofeak, incentivando o rapaz a manter-se firme. Mesmo com as proteções, os golpes dos mogunis eram muito doloridos, e o rapaz sentia muita dor.

 

— Vamos, rapaz. Não queres ser forte para proteger seus pais? Lembre-se de que eles só têm você aqui na fazenda para protegê-los. Vamos, seja corajoso! Mostre sua força! — dizia Ofeak, enquanto batia palmas em cadências diferentes para cada sequência de movimento. Thomas conseguia repelir todos os golpes até o limite, desviando socos com bloqueios circulares com os braços, desvios com a palma da mão, inúmeras esquivas e desvios. Passaram-se vinte minutos de intenso combate, e o rapaz já não aguentava mais os movimentos. Ofeak não mudava a intensidade do treinamento, e o Moguni já estava a acertar Thomas, uma vez que seu estado de fadiga era tão alto que, mesmo seus reflexos ordenando um determinado movimento de defesa, seu corpo simplesmente não respondia. Caiu com um joelho no chão, tentando apoiar-se no outro para buscar forças. O moguni então tentou acertar-lhe um chute diretamente no rosto, e o garoto conseguiu desviar-se, mas logo foi surpreendido com um poderoso golpe de cima para baixo com a mão, que acertou em cheio seu capacete. Na sequência, uma série de socos desferidos em seu abdômen o fez dobrar, sendo então finalizado com um soco que vinha de baixo para cima. Thomas caiu estirado no chão, desacordado.

 

Lentamente o menino voltou a si, recobrando aos poucos a sua consciência. Ofeak o olhava de longe, aguardando que ele recobrasse sua consciência. Ao conseguir levantar-se o suficiente para sentar-se no chão, o anão aproximou-se de Thomas, agachou-se e o questionou:

 

— Quais as duas lições que você aprendeu com este exercício, rapaz?

 

Thomas, ainda tentando recompor-se, responde:

 

— Lição? Não sei bem… Talvez tentar amortecer uma queda no chão com a cabeça ou algo assim?

 

Ofeak soltou uma gargalhada e logo em seguida disse:

 

— Primeira lição: esquivas são melhores que bloqueios. Além de você ter menos contato com o oponente, você gasta menos energia. Deixe-o gastar sua própria energia, em vez de você gastar a sua.

 

Ainda procurando o capacete, que a esta hora já estava longe, o menino responde ao anão:

 

— Certo. Entendi. E da pior maneira possível, creio eu.

 

— Exato! — responde Ofeak, que parte para a segunda lição. — E a outra coisa é que você jamais deve se entregar em um combate. Mesmo que você esteja à beira da morte, nunca desista. Nunca pare de lutar um segundo sequer. Levante-se sempre, ainda que seu corpo esteja todo quebrado e você não tenha mais nenhuma arma à sua volta. Mesmo assim, você terá seu espírito, e é dele que vêm toda a sua força e sua virtude. Vamos, agora levante-se. Vamos continuar o treinamento e lembre-se: esquive-se mais e bloqueie menos.

 

Assim, passaram o resto do dia treinando. Apesar de não ter dito nada ao rapaz, Ofeak estava muito impressionado com a resistência adquirida por Thomas. Foram quase trinta minutos de um combate muito intenso. Tentava buscar na mente algum combatente que tenha ficado em combate contra um só oponente durante tanto tempo e não se lembrava de absolutamente ninguém. Pensava consigo:

 

“Este garoto nasceu para isto. Está destinado a fazer grandes feitos. Estou muito feliz em ter a oportunidade de educar nas artes do combate o neto de meu senhor. Só tenho a agradecer.”

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