Vítima

Sep 13, 2025

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Hoje vim saudá-la com uma somersby e uma tosta mista à beira mar. Sentámo-nos à mesa, logo depois de escrever intenções, disciplinas e ordem à casa para os próximos seis meses, irónico? 😅 pois que tal aplaudir 👏 e dar as boas vindas à complexidade, incoerência de isto que é ser humano 😁 Vamos celebrar e dar a facada antes de começar com o plano saudável de alimentação.

Quantas vezes te apanhas aí? Eu, muitas e tantas vezes. Às vezes saco o chicote outras o sentido de humor.

Quanta fome emocional levo dentro e olhá-la de frente e recebê-la é um exercício diário, pôr carinho em vez de exigência. Assumir que me habita uma coitadinha, frágil, dorida que carrega pesos e memórias na sua biografia que a levam a responder de lugares de carência, insuficiência e tanto desamor. Que se quer proteger para evitar o golpe seguinte, desconhecendo o quanto isso a fecha à vida.

Nem sempre estou consciente da vítima que levo dentro, às vezes apanho-a no queixume, no lamento, no medo, na tristeza que chega sem aparente razão. Naquela que quer desistir, largar tudo e abandonar-se à inércia dos dias. Quando a apanho quero-me livrar dela pronto. Às vezes guerreio com ela, e chamo-lhe drama queen, lá está ela, vai mas é fazer qualquer coisa de útil. Ocupa-te, sai dessa mente lamechas.

E logo de seguida encontro-me com a minha perpretadora, aquela que conheço muito bem, trato por tu e meto a mão no ombro. Aquela que luta, persiste, exige e cumpre os desafios e compromissos, pronta para a batalha, custe o que custar. A que é boa a fazer check list e fica tipo carrasco a controlar que se cumpra. E tão bem disfarçada ela anda de boa pessoa, que é tudo para o bem dela, queremos o teu melhor tudo por ti.

E nesse melhor tão bem intencionado, vai abafando a vítima que sente e quer chora, que mostra que dói e vai revelando à medida que olhas as partes que doem e as dores que querem ser vistas. Ela só quer colo, luz e amparo e a perpretadora não tem espaço para ela. No fim do dia tem um medo tremendo de ser destruída por ela.

E se a desistência que a vítima pede for real?! Estarei pronta para me confrontar com o fim?!

Tantas questões me mantém afastadas de olhar para estas partes que dentro querem ser vistas.

Há momentos que sem querer a vida te proporciona visitas prolongadas à vítima, para que a possas receber e validar. E percebes isso quando o outro te diz, sai daí e tu respondes, quero ficar e honrar estas lágrimas e aflição que levo dentro.

Esta também sou eu e também levo uma agressora a quem dei tanto poder e que agora reconhecendo, poderei permitir que dancem uma dança mais melodiosa. Posso atendê-las e vê-las porque me atrevo a olhar, dignificar e escutar as necessidades. Agora posso amar, sem precisar rejeitar ou pedir que se vão embora.

Escolho dançar com a minha vítima, rir-me, brincar, chorar e tudo aquilo que ela trouxer… escrito assim parece fácil, mas é caminho e coragem ousar assumir os gritos e desesperos que a vítima sempre mostra. Serás boa mãe para validar tudo o que vem dessa parte tua, por mais estranho, absurdo ou atroz possa ser?! É uma descoberta.

E é aceitar dançar na dualidade, incoerência, fragilidade e força. Treinar o não julgamento e mandar para a reforma o auto-crítico e juiz.

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