Realidade e verdade

Apr 09, 2025

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As doses de realidade sempre acrescentam por mais desconfortáveis que possam ser.

Quando te apanhas nas atitudes onde estiveste mal, que te faltou a sensibilidade e delicadeza com o outro. E engoles o orgulho e pedes desculpa e assumes a consequência dos teus actos. Mas melhor é quando questionas porque te saiu a rudeza e descobres que te faltou a honestidade direta.

A vontade de ser agradável, inclusiva, a boa menina, afinal não custa nada dizer sim ao outro, mesmo que a verdade interna te diga não… e claro mais à frente estou condenada a ter uma saída infeliz, porque me rodeiei de palavras mansas em vez de ter sido direta e evitar cair na armadilha que criei para mim mesma.

E poderia rodear-me de culpa pelo erro cometido e por ter sentido as consequências na pele… porém, contudo, decidi aplaudir-me quando me apanhei na curva. Há que celebrar a lição aprendida, que estou a aprender e que provavelmente vou voltar a errar e cair e está tudo bem, sigo aprendendo. Sou humana e frágil e isso ajuda-me a ser mais amorosa e compassiva.

Voltei a apanhar-me na minha impaciência. No querer que as coisas se façam no meu tempo, e esse é um tempo veloz, de preferência já. E isso relembra-me que posso respirar, aquietar e seguir o ritmo que me é pedido. Também guiar e direcionar. Vamos lá foco. Parabenizar também pelo esforço e trabalho conseguido.

Que o outro tem uma maneira própria e como estimular sem interferir que o outro se desenvolva. Cinco horas e meia acompanhando, sustentando, disponível para as dúvidas e percalços. Apanhando-me na impaciência e na consciência de não posso nem quero interferir. Que perguntas posso fazer para apoiar nas dificuldades e suscitar que o outro encontre soluções.

As pausas necessárias. Ver o mar. Lidar com o aborrecimento do outro e a inércia de sair daí. Eu querer ficar e como dar a volta?! Mudemos de sítio, de perceção. E de repente caminhar traz uma nova lufada de ar fresco. E o aborrecimento rapidamente se transforma em entusiasmo por apanhar conchas, molhar os pés à beira mar. Muda-se o foco, muda-se a energia e a vontade.

Assistir à força dos pensamentos que querem derrotar a presença de simplesmente ficar no momento. A preocupação pelo trabalho que surge. Temos de regressar, diz ele, tenho de terminá-lo. E lá o fui distraindo para que relaxasse. E quando chegámos de novo, lembrei-o, quero ver esse foco e vontade no empenho ao trabalho. Ele sorriu, também se conhecia. E voltou a ter de ser dirigido.

Chegou e começou a querer distrair-se com as pedras que trouxe, com a fome que trazia e a comida, com as brincadeiras dos jogos no computador e o banho, quando lhe falei, passou a ser a prioridade seguinte a seguir ao lanche.

Era uma criança, mas revi-me plenamente. É que afinal levo dentro essa criança viva que tantas vezes apresenta um comportamento tão semelhante, ou será a minha mente que na verdade tenta domar-me, desafiando, distraindo-me, sabotando-me e eu tantas vezes caio nela, porque confundo-a com a adulta.

Quando crio o distanciamento vejo-me através daquele exemplo e como respondo também aos desafios que me propõe para pôr ordem, limites e segurança. E como acolho e amparo de um lugar generoso e acolhedor.

Como atendo momento a momento cada proposta e como me apanho nas tentações de querer ignorar, quando o pedido é mesmo ficar e receber melhor.

A verdade é crua, é o que se mostra, é a realidade, os factos, não carece de justificação ou interpretação. É aquilo que se mostra e por vezes é desconfortável, incómodo e desarruma. Mas sempre devolve ao que precisa ser olhado.

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