Partilhas

Sep 24, 2025

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Sou história que se escreve a cada passo. Vêm palavras, reflexões, ações, figurantes, cenários vários.

Às vezes vou por aí e ponho-me à escuta das conversas alheias, que por se fazerem a alto e bom som, me chamam a assistir.

A que horas combinamos o jantar, e se mudares de ideias está tudo bem, não te preocupes com a hora, assim foi a conversa do convite para Olívia, uma francesa no meio de duas inglesas, e, eu, atraída por línguas, pelo inglês, francês e espanhol sempre aproveito para prestar atenção 😅

Talvez uma distração para fazer um intervalo da minha própria reflexão e não continuar aprofundar, ou uma pausa, para ganhar ritmo, ou quiçá para acrescentar.

E sempre acrescenta se estiver aqui presente a dizer sim ao que se apresenta e pôr no banco a juíza crítica que tem um argumento afiado sempre pronto a disparar.

E se tudo é bem vindo, a interrupção e distração também é bem vinda. É balanço, é dança, é descanso.

E isso faz derreter a minha auto-exigente rígida e soberana que quer disciplina e retidão e me diz, bolas, lá estás tu, a arranjar desculpas para não assumir responsabilidade e rédeas sobre ti, é que estás sempre distraída e na lua. Sempre a aproveitar qualquer palavra e circunstância para continuares a escrever.

E onde estás tu quando escreves?

Num momento próprio só teu, em vez de estares lá fora a funcionar e ser funcional no mundo da matéria. Talvez 🤔

Mas a presença em mim diz-me que o melhor lugar para habitar é este. A presença de sentir, escutar, observar o que acontece dentro e fora.

Recordo-me tantas vezes de ser funcional e estar ausente, perdida nos pensamentos. E assistir-me na quietude tão mais presente.

Há uma espécie de curiosidade inocente em querer descobrir este ser que se mostra e abrir as portas para recebê-lo melhor. E essa é a tarefa mais importante que tenho para fazer.

Desconstruir hábitos, crenças, pensamentos e emoções que não nos pertencem. Cada vez que me olho com mais atenção, mais vou apanhando os apegos que me travam os passos. Descobrindo novas rotas e convites para experimentar novas estradas.

E isso estando em casa, permanecendo, sem me ocupar com o mundo lá fora e desligar deste sentir poderoso que me convida a acompanhar cada vez com mais presença.

A mente ainda navega em querer fazer coisas, descobrir novos lugares, inovar, criar, sair para o mundo, os bichos de carpinteiro e vai observando e criando espaço para essa inquietação reduzindo a pressa de a querer preencher.

Haverá melhor exercício do que revelar-me como quem revela uma foto no escuro e espera que a luz dê contornos e forma à imagem. Não se sabe como vai surgir, mas resta esperar o tempo da sua manifestação.

Uma construção que se vai fazendo com muitas demolições e criações. Tempos de pausa e de ação. Como este texto que se foi compondo sem saber muito bem que rumo iria tomando, apenas permitindo e recebendo as palavras à medida da sua vontade. Talvez por isso goste tanto da tela branca e esperar com curiosidade o que brota. E poder receber o sumo, a poesia, a reflexão que quer sair.

Traduzir o que o ser tem para dizer, que mensagem preciso oferecer, como posso servir melhor. É um espaço de abertura que me sabe tão bem e me ofereço a mim em primeiro e a ti que me lês. E saber que tu me lês é um honra, porque te sentas para me ver.

Talvez recebas algo da minha partilha, não tenho como saber, se não deres feedback. É interessante quando recebo e observar os espaços que abre no outro. E é bonito observar os ecos, e outros a abrirem quando se partilham.

É tão grandioso e generoso quando nos partilhamos e damos acesso e permissão que outros o façam. O amor vai-nos curando a todos à medida que nos tocamos desse lugar.

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