Movimento

Nov 20, 2025

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Quando te moves tudo se move. Diz que passou a tempestade Cláudia e ela moveu as coisas de sítio. Sacudiu as águas, os ventos, a terra e o sol. Trouxe arco íris, agitação, bênçãos.

Ela caminhava para do Sul para o centro, deixando para trás a tempestade. Parecia que escapava aos pingos da chuva. Sem antes da tempestade ter feito a manutenção às águas quentes lá de casa. Às lamas que se acumulam no contentor do termoculador, tudo limpo, juntamente com as torneiras. E ainda que a janela tivesse ficado escancarada, as águas foram suaves. Trataram-lhe bem e deixaram-lhe a casa seca.

Nada é pessoal, e ela seguia observando os sinais. O movimento sempre atualizando a agenda e mostrando-lhe que não controlava nada. Os planos que se ajustavam. A informação do atraso que não chegava a tempo e ela já no caminho, o certo, já que a chuva resolvia cair depois de chegar enxuta ao destino. O almoço que é desmarcado, dando-lhe a pausa perfeita entre pessoas, para que pudesse desfrutar da sua companhia e observar os passantes. Ela que gostava de contemplar a vida a acontecer ao redor.

A chuva corria lá fora e ela escrevia no Açúcar e Canela. Os mimos bons da presença das amigas, dos risos, da quotianeidade, das histórias das avós, da ressonância sentida na pele sempre que humanos se tocam.

E ela seguia tecendo encontros dentro de si, recolhendo histórias, observando movimento e sensações. Redescobrindo lugares. Como se enraiza em novos espaços, como redescobre o mesmo lugar numa estação diferente. E agora abundam os verdes, a chuva, as águas do rio, o nublado, o sol e o arco íris. Quem chega novamente não é a mesma que lá esteve meses antes. Mostra a terra com novas vestes e eu também.

Estamos constantemente a apresentar-nos aos mesmos rostos quando com curiosidade reconhecemos que há novidade na presença, nos rostos, nos corpos, na energia.

Estamos sempre a ajustar-nos ao movimento, a elaborar melodias com a música que recebemos, com a troca que recebemos.

Sempre recebemos, queiramos deixar entrar. Dei por mim a respirar o movimento, já que ele vinha de rompante, acelerado como a tempestade que havia lá fora. Como me impacta, como me ajusto dentro? Como me mantenho aberta sem tentar controlá-lo, corrigi-lo?!

Como lhe digo sim, com respeito por mim?! Só sei momento a momento o passo seguinte e confio nesse movimento.

A importância de comunicar e dizer o que vou fazer quando tomo a decisão. Onde me perco dentro do que é certo para mim e me esqueço de dizer fora, esperando que sejam adivinhos?!

Tomo nota. Claridade quando vem, afirmá-la. Não é mal nem bem, é a vida a revelar, a orientar e realinhar.

E apanho-me a querer tomar as decisões antes do tempo, para despachar-me da pressão de aguentar, e o querer ter a agenda delineada. O querer decidir as horas da viagem, os dias para ir, e não conseguir comprar a viagem. E confiar no soltar, no fluxo do passo seguinte. E permitir-me ser maravilhada com os convites.

O convite de ficar para mais uma cerimónia, para mais um passeio em terra de fadas. O convite para ficar na família do sol, para mais um ritual nas águas da mãe. E tudo porque me deixei livre sem bilhetes comprados pude desfrutar dos presentes. E vêm duas grandes romãs e uma maçã para a viagem de regresso.

Uma das frutas favoritas e símbolo de prosperidade. A vida a revelar-me para fluir no movimento que ele traz tudo o que precisas e também te retira o que não for adequado no momento. Nada a entender com a mente e tudo a receber com o coração.

Ontem receberam-me as águas do mar, calmo, azul, depois da tempestade, com a brisa quente e luminosa de um dia de sol. E também a surpresa de uma amiga que se juntou e foi a banhos comigo.

Há um colo muito grande disponível queira eu abrir os olhos e vê-lo. O movimento segue, assim como a lua segue o seu ciclo, e esta madrugada fez-se nova, para seguir novamente para o estágio seguinte até voltar cheia e minguar. E ainda que a forma aparente repetir-se nada se repete.

Há movimento que impacta, que choca, que provoca, desmonta e revira, outro que a respiração embala melhor. E vou ganhando espaço para me embalar melhor nas propostas que surgem.

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