Amortecedores

Jun 04, 2025

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Quantas vezes ficar pode parecer mais assustador do que abstrair-se?! Vou só ali distrair-me, fazer um scroll nas redes, ver um filme, fazer coisas, ocupar-me.

Ficar é poder assistir e acompanhar os incómodos. É sentir tudo. No corpo, nos pensamentos e emoções.

O que fazer com isso tudo?! Tantas vezes é a pergunta de quem quer encontrar soluções, como é que se termina, como se cura? O que preciso de fazer para chegar ao destino?!

E a resposta vem só com um passo seguinte, nada antes, nem depois. Confiar sem abalar para outro lugar que não seja ficar aqui na realidade. Não obstante, apanhar-se aí e acolher é tanto.

E observo na experiência do dia a dia a vida a correr. O carro que vai para a oficina, os amortecedores que precisam de ser mudados. Logo agora que não dava jeito nenhum. Num momento em que se aproxima viagens e gastos… quase morri de susto quanto me apresentaram a fatura 😂 primeiro foi a notícia, o carro chumbou na inspeção, e a reação, “estás a gozar”, afinal também amortecedor na frente… e depois quando vem a fatura novamente “estás a gozar”. Depois ao vivo lá disse à rapariga da oficina, deves achar que sou louca, tu a fazeres o teu trabalho e eu literalmente a achar que estavas a gozar 😅 E a minha reação foi autêntica, do choque, do inesperado. O instinto, o corpo tem a primeira expressão, depois intelectualizamos a coisa, mas o primeiro é como somos impactados pelo que vem.

O susto, o medo, ai tanto dinheiro. E depois o trabalho de acalmar o sistema nervoso, respirar e dizer que está tudo bem. E sim posso sentir tudo, permitir. E a seguir de um lugar mais regulado responder.

Os símbolos sempre a comunicarem, novos amortecedores para estabilizar os pneus na estrada, suavizar os buracos, as trepidações na estrada, maior aderência ao piso e segurança. Ora o veículo / corpo a renovar-se com nova estabilidade, segurança e enraizamento.

Há medos que carregamos e não fazemos a mínima ideia, mas a forma como respondemos à vida, como nos sentimos ativados e gatilhados vão trazendo à luz o que mora escondido dentro.

E vem o pensamento que me diz, ai como será andares por esses caminhos na Noruega, tantos transportes por apanhar, numa língua com sonoridade tão diferente da tua. E lá vem o medo do desconhecido e a mente a ocupar-se com o que ainda não chegou. Até aí tudo bem. Sentir a agitação do sistema nervoso e o incómodo ativou de imediato a estratégia, bem temos muita coisa para fazer até lá, vamos ocupar-nos. E nessa subtileza percebeu o abandono que se estava a dar. Vá não penses, não sintas, vamos para a frente. Nesse momento parou e entrou na ansiedade. E disse-lhe podes sentir tudo, estou contigo, estás acompanhada. Aconteça o que acontecer vamos estar juntas. Se nos perdermos encontraremo-nos, podes sentir medo. E veio a frase “tenho medo de não saber tomar conta de mim”. E se não dou conta?!

Interessante os monstros que levamos dentro. É que essa frase não é real, é só um pensamento forte a que dei vida dentro. Talvez herdado e que me tem atormentando os passos ao longo do caminho e também apoiando, pois faz com que prepare tudo com mais cuidado e atenção. Mas já não preciso dele. Ele ativa-me o sistema nervoso, dispara-me o cortisol e o stress. Claro que o saber isto não me saca de imediato daí, mas põe-me mais vigilante e consciente para desprogramar estes padrões.

Não me páro de surpreender com o que encontro dentro. E tudo o que é pedido é abrir espaço para receber isto tudo, sem julgamento, mas com espaço e compaixão. E pôr-lhe humor e leveza também.

O carro diz-me que sempre é necessário manutenção, revisão, inspeção. E como imagem simbólica representativa do nosso corpo, é interessante observar o que ele vai pedindo momento a momento. Então já lhe demos novas pernas (pneus) este ano, amortecedores, pastilhas de travão, novos tubos no mija mija. Literalmente uma renovação do corpo.

Curiosa a ver como se vai manifestar na pele, na vida, possa eu ver, escutar e receber.

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