As runas serviam como uma espécie de amuleto de proteção (vertente mágica), são inúmeras as provas relacionadas com isso!
Porém, na perspetiva divinatória a conjuntura já é totalmente diferente! Somente existe um único documento antigo que indica que as runas eram utilizadas como oráculo. Esse texto foi escrito por volta de 98 d.C., pelo historiador romano Públio Cornélio Tácito e tem o título de “Germania”.
Nesse texto (no capítulo 10 da obra citada) o autor descreve uma prática divinatória utilizada pelos povos germânicos, frequentemente associada à origem da tradição rúnica.
De notar que Tácito nunca utilizou a palavra “RUNAS” (muito menos “Futhark”). Empregou o termo latino NOTAE, que significa marcas ou sinais.
Os primeiros testemunhos arqueológicos da escrita rúnica datam aproximadamente do século II d.C., posteriores à descrição de Tácito.
Nesse texto é descrito uma metodologia para a interpretação de três “runas”.
Escreve Tácito que as “runas” deviam ser lançadas em plena natureza (perto de uma árvore frutífera) e sobre um pano branco.
Após o lançamento do set, selecionavam-se três glifos aleatoriamente. Existiam duas opções na forma de as interpretar:
Opção #1). Examinavam-se os três glifos como algo representativo de uma situação, sem seguir uma ordem específica;
Opção #2). A interpretação dos glifos era de forma individual (similar ao método das Norns).
Hoje em dia, o facto de não existirem referências históricas (relacionadas com o lançamento das runas) faz com que os profissionais da área utilizem spreads idealizados para uma resposta cartomântica.
No texto de Tácito nunca é mencionado um spread específico para as runas. Também não explica o significado individual dos símbolos.
O que sabemos é que os três sinais eram interpretados no contexto de uma consulta e que o resultado podia ser favorável ou desfavorável.
Segundo Tácito, no caso de surgiram sinais desfavoráveis a consulta terminava nesse mesmo dia. Se ocorressem sinais favoráveis, era necessária uma confirmação através de outros métodos divinatórios (sem especificar que tipo de oráculos eram utilizados).
Isto sugere que o ritual não se destinava apenas a prever acontecimentos, mas também a orientar decisões.
Neste texto vou colocar em prática o método de Tácito (mesmo tendo em conta que desconheço as regras exatas de interpretação e os símbolos utilizados para tal).
Assim…
· Vou formular uma questão concreta (acompanhada de um conselho) que implique uma futura tomada de decisão;
· Vou lançar peças de madeira (runas) sobre um pano branco;
· Vou retirar três peças;
· Vou interpretar os três sinais em conjunto (para formar uma espécie de “big picture”).
O dilema é o seguinte:
Tenho uma cliente que está a viver um período complicado. O namorado rompeu a relação que mantinha com ela há vários anos. Argumentou que tinha dúvidas em relação aos sentimentos que nutria.
PERGUNTA: Existe possibilidade de reconciliação?
CONSELHO: É oportuno ela esperar por ele?
RUNAS NO PANO BRANCO: HAGALAZ, EIHWAZ e GEBO
São apenas três runas, não vão contar uma grande história! Curiosamente, duas destas três runas estão relacionadas com o segundo Aett (o Aettir das grandes provações).
Passo a descrever cada runa que surgiu no pano branco (algo contrário ao método de Tácito).
1. HAGALAZ: O Granizo
Representa a destruição de uma estrutura existente, a crise e os acontecimentos súbitos que desorganizam aquilo que parecia estável.
Relacionado com esta questão, pode simbolizar precisamente uma separação tumultuosa. O início de uma grande TEMPESTADE em pleno INVERNO!
A runa diz que aquilo que sustentava a relação deixou de funcionar. Desta forma, ESTA RUNA NÃO PERMITE IGNORAR A RUTURA!
Sussurra que não existe volta à relação anterior e mesmo que haja uma possível reconciliação, dificilmente poderá ser uma continuação do que existia (tendo em conta as runas coadjuvantes).
2. EIHWAZ: A transformação
Tradicionalmente associada ao teixo, simboliza resistência, a transição e a transformação profunda.
Nesta leitura, a runa sussurra que há uma mudança que precisa de ser compreendida e integrada.
Ou seja, depreendo que uma simples reconciliação não resolverá a situação em termos de estabilidade futura.
Mais, sendo esta peça colocada entre a DESTRUIÇÃO e a UNIÃO, indica que existe um processo de mudança a atravessar.
SIMBOLICAMENTE NÃO FAVORECE SOLUÇÕES PRECIPITADAS nem uma reconciliação motivada apenas pela saudade, pelo hábito ou pelo medo de perder o outro.
3. GEBO: A reciprocidade
É a runa da dádiva, da parceria, da troca e do equilíbrio entre dar e receber.
Como última runa, introduz a POSSIBILIDADE SIMBÓLICA de uma nova forma de relacionamento entre ambos, mas exige reciprocidade!
Não representa necessariamente o regresso do namorado como companheiro sentimental! Poderá indicar a permanência de uma amizade entre eles!
Assim sendo, essa relação poderá adquirir uma nova configuração, mas apenas se ambos estiverem disponíveis para participar nela livremente.
De notar que a minha cliente nega-se a vivenciar uma relação de amizade com ele, diz que isso acarreta um sofrimento que não consegue suportar! Assim, prefere manter distância!
Tendo em conta a LINGUAGEM SIMBÓLICA DAS RUNAS, observo a possibilidade de uma reconciliação CONDICIONADA POR UMA TRANSFORMAÇÃO PROFUNDA.
O facto de ele argumentar DÚVIDAS SOBRE OS SEUS SENTIMENTOS, coloca, pela lógica, a questão da reconciliação num terreno de grande incerteza.
Mas, no fundo, esta crise vivenciada entre o casal não significa necessariamente que ele esteja a considerar uma separação definitiva. Afinal, ele nunca argumentou falta de sentimentos por ela, apenas confusão e dúvidas. Faz-me entender que ele é um homem emocionalmente problemático!
A rutura foi uma decisão (provavelmente impulsiva) que partiu dele e desencadeou uma “tempestade” que produziu consequências dramáticas na vida da minha cliente.
Agora, tendo em conta a metodologia de Tácito:
EIHWAZ está entre HAGALAZ e GEBO. Ou seja, existe aqui um processo de destruição, transformação e reciprocidade. Perante tal, observo uma reconciliação futura!
Porém (tendo em conta uma abordagem moderna), depreendo que antes de qualquer reconciliação, existe uma transformação necessária!
A pergunta que fica no ar é a seguinte: ambos são capazes de abraçarem uma transformação tão exigente?
Agora, em relação ao conselho rúnico:
Consequentemente esperar que ele se resolva não desencadeia nenhum tipo de transformação! Assim, não é recomendável que ela o faça!
Aliás, a runa EIHWAZ, não pode ser interpretada como uma indicação para a minha cliente esperar por ele! Não faz sentido! Afinal, EIHWAZ é uma runa de transformação e não de uma espera passiva!

