Na Suíça, cada cidadão consome cerca de 100 gramas de açúcar por dia. Isso dá mais ou menos 25 pacotinhos de café, o dobro do que a Organização Mundial de Saúde recomenda. E como bons helvéticos, fazemos isso pontualmente, com eficiência e provavelmente com chocolate de qualidade.
Agora, o país debate se deve legislar a coisa. A esquerda quer taxar. A direita grita “liberdade de escolha!”. Os distribuidores pedem cinco anos para se adaptar — como se o açúcar fosse urânio enriquecido. E o cidadão comum? Esse anda meio zonzo, talvez de hiperglicemia.
A questão é simples: a liberdade de escolha é legítima. Mas que escolha temos quando tudo já vem adoçado até a raiz? É como ir a um restaurante e só poder escolher entre fondue de queijo… e fondue de queijo com mais queijo.
Quando adoçamos o café, ao menos sabemos o que estamos a fazer: escolhemos. Mas quando o açúcar vem embutido no pão, no iogurte, no molho de tomate e até na mostarda (sim, já vi), que liberdade é essa?
O mais engraçado (ou trágico) é que, quando os efeitos colaterais do açúcar chegam — diabetes, hipertensão, obesidade, etc. —, quem paga a conta somos todos nós. A liberdade individual torna-se um encargo coletivo. É como se o vizinho deixasse a torneira aberta e todos dividíssemos a conta da água.
E enquanto isso, os comerciantes explicam que não podem reduzir o açúcar já. Precisam de “transição”. É curioso: um produto cinco vezes mais caro que o custo da matéria-prima precisa de cinco anos para pôr… menos?
Claro, há um certo romantismo no açúcar. Ele conforta, anima, consola… e mata devagar. É o amante traiçoeiro da alimentação moderna: parece inofensivo, mas está a sabotar-nos por dentro com um sorriso caramelizado.
Então talvez seja hora de mudar. Não com fanatismo, nem proibindo o chocolate dos avós. Mas com bom senso. Como no café: quem quer, adoça. Quem não quer, não leva nada. E ninguém é acusado de ser contra a liberdade por isso.
No fundo, o açúcar é como um político populista: promete prazer fácil, mas depois cobra caro — em consultas, exames, medicação… e impostos.
