Nos últimos anos, o mundo do trabalho assistiu a uma transformação linguística que, à primeira vista, poderia parecer apenas um detalhe sem importância. Mas, ao observarmos com mais atenção, percebemos que este fenómeno revela muito sobre as dinâmicas de poder, os discursos institucionais e até as ideologias que regem as relações laborais atuais.
Hoje, já não temos "empregados" — temos colaboradores. Ninguém é "despedido" — há rescisões amigáveis, desvinculações consensuais ou reorganizações de talentos. E quem fica sem trabalho já não é "desempregado", mas sim alguém em transição de carreira, entre projetos ou a viver um offboarding positivo.
Estas expressões fazem parte de um vocabulário cuidadosamente elaborado pelas empresas e departamentos de recursos humanos (ou, mais modernamente, People & Culture). A intenção é clara: suavizar a dureza das decisões, tornar o ambiente mais “humano” e evitar termos que evoquem desigualdade ou vulnerabilidade. Mas há um preço a pagar por esta cosmética verbal.
Palavras que desresponsabilizam
Quando deixamos de chamar "empregado" a quem trabalha, também diluímos a existência de um empregador. Se somos todos "colaboradores", quem é o responsável quando há um despedimento coletivo? Se ninguém é "desempregado", então será que existe realmente desemprego?
Esta linguagem cria uma realidade paralela onde os conflitos de classe, os abusos de poder e as assimetrias estruturais desaparecem. Tudo se torna "positivo", "voluntário" e "flexível" — mesmo quando não o é.
Como dizia George Orwell, em Politics and the English Language (1946):
"Political language is designed to make lies sound truthful and murder respectable, and to give an appearance of solidity to pure wind." A linguagem política foi concebida para tornar as mentiras verdadeiras e o assassinato respeitável — para dar aparência de solidez ao que é puro vento.
Uma linguagem com agenda
Esta nova terminologia é muitas vezes apresentada como sinal de modernidade e inclusão. Mas ela tem raízes profundas numa visão do mundo onde a empresa se apresenta como uma “família” ou uma “comunidade”, apagando a fronteira entre vida profissional e pessoal. É o léxico da chamada corporatividade soft, onde tudo parece fluido — exceto os contratos de trabalho e os direitos laborais.
Como alertava Noam Chomsky em Media Control (1991):
"The smart way to keep people passive and obedient is to strictly limit the spectrum of acceptable opinion, but allow very lively debate within that spectrum." A maneira inteligente de manter as pessoas passivas é limitar estritamente o espectro de opinião aceitável, mas permitir um debate animado dentro desse espectro.
Esta nova linguagem não é neutra — ela faz parte de um projeto ideológico que despolitiza o trabalho e individualiza os problemas estruturais. Se alguém é despedido, a culpa não é da empresa ou do mercado — é apenas um redirecionamento de carreira, uma nova oportunidade de reinvenção pessoal.
Byung-Chul Han, no seu ensaio La société de la transparence (2012), resume bem esta mutação:
"Le pouvoir contemporain ne s’exerce plus par la répression, mais par la séduction." O poder contemporâneo já não se exerce pela repressão, mas pela sedução.
E os direitos, onde ficam?
Com esta linguagem, corremos o risco de transformar o despedimento em coaching e a precariedade em “agilidade”. Mas palavras não pagam rendas. Não protegem contra abusos. E não substituem direitos laborais.
A escritora e ativista Barbara Ehrenreich já havia denunciado, em Smile or Die (2009):
"Positive thinking has become an ideology — a way of understanding the world that places the responsibility for our fate entirely within ourselves." O pensamento positivo tornou-se uma ideologia — uma forma de ver o mundo que coloca toda a responsabilidade pelo nosso destino em nós próprios.
O que precisamos é de uma linguagem clara, honesta e justa — que nomeie as relações como elas são, e não como as empresas gostariam que fossem percebidas. Porque só quando damos nome às coisas podemos começar a transformá-las.
