Quando os olhos não disfarçam

Quando os olhos não disfarçam

May 12, 2025

(Alguns cumprimentam com a boca, mas amaldiçoam com o olhar.)

Não vinha vestido de festa, nem carregava grandes feitos.

Mas bastava-lhe chegar para que os sorrisos de alguns se encolhessem como panos ao vento.

Tudo o que fazia, fazia em silêncio. Não pedia palmas. Mas mesmo assim, colhia frutos que ninguém acreditava ver numa árvore tão discreta.

Caminhava com rectidão. Erguia o dia com as mãos. Dizia pouco, mas fazia muito.

E por isso, sem perceber, atraía olhares. Não os bons. Mas os que pesam.

Um desses olhos, em particular, não sabia disfarçar.

Cruzavam-se, e o rosto endurecia.

Fingia-se simpatia, mas o semblante trocava de pele, como cobra perante lume.

Um dia, o homem da rectidão ofereceu uma semente ao que o olhava com espinhos.

O outro recusou, com palavras doces e olhos amargos.

— "Já tens tudo" — disse. — "Guarda para ti."

Nesse instante, ele compreendeu: há quem não queira o teu bem, apenas que tu estejas pior.

E mais: há quem não inveje os frutos, mas a paz com que colhes.

Seguiu.

Com passos leves e olhos limpos.

Pois entendeu que quem brilha sem fazer barulho, ofende os que só sabem viver no estrondo.

Moral?

“O semblante do invejoso sempre muda quando te vê bem.”

“Alguns não te querem mal. Apenas não te querem melhor do que eles.”

E dizem, os que ainda lembram, que os frutos desse homem alimentaram muitos, excepto aqueles que, com olhos pesados, recusaram colher.

Se esta história te tocou, convido-te a apoiar este espaço onde as palavras andam descalças, mas deixam pegadas fundas. Cada contribuição ajuda-me a manter viva a arte de contar histórias com verdade, silêncio e alma.

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