
Corpo meu quantos pesos te carrego?! E sentindo-os ainda te carrego mais… há uma tendência sádica para pôr o dedo na ferida quando dói para que aí fique ocupada e não olhe para mais nada.
O saber não te iliba de passar pela experiência de te repetires no que dói. O corpo de dor sempre procura alimento para continuar no conhecido. Uma espécie de adição e de abandono aos infernos da mente que sempre se alimenta de narrativas que só acontecem na sua cabeça e que impactam nas emoções e no corpo.
Apanhei-me a dançar. E a voz solta sons de libertação, gozo. E cabeça esvazia. O corpo salta, ri e o movimento tudo altera.
E observo como a rapidez da mente entorpece e adormece o movimento do corpo. Dois movimentos contraditórios.
Toda uma vida ocupada com afazeres e ação, ação para não me dar conta deste funcionamento. Os monstros sempre habitaram dentro, mas se me mantiver ocupada o suficiente pode ser que não os veja. E como é olhar de frente para eles?!
Dizer-lhes sim. Apanhar-se na jornada dos pensamentos e perceber que toda uma vida lutei com eles, saiam daqui. E tentar trocar uns por outros, como quem muda de banda sonora. E não estarei a expulsar partes moradoras minhas?! Como as atenuo?!
Talvez precisem da minha presença e atenção. Que lhes diga que está tudo bem. Que as valide, para que se acalmem. Talvez não precisem de julgamento ou crítica.
E o corpo sempre me pede movimentos amplos, jinga, gargalhada.
Hoje pus a intenção de escutar o corpo e fazer-lhe a vontade. Conta-me o que precisas. Que pesos podemos descarregar?!
Só por hoje ele diz-me que quer dança e descanso, intercalando as pausas, as respirações. Quer devagar… e essa é a contradição para a mente que sempre achou que tinha de ser rápido. Também ela achava que era corpo e queria tomar conta do pedaço. 😅
Vou descomprimindo… e quanto mais o faço mais aparecem as microtensões. E é manter a dança entre o que contrai e relaxa. O que segura e o que pode render-se.
E seguir entregando, confiando, relaxando, caindo para que a vida segure.
Se há treino a cumprir é este de me deixar descontrair. Soltar o corpo, a voz, a respiração.
