Passageiro

Oct 20, 2025

imageO meu apoio tem condições. A primordial, de querer viver. Todos os dias escolho ficar. E relembro que a minha alma escolheu vir nas condições perfeitas, tornar-se corpo e encarnar mais e mais nesta pele, neste lugar.

Nesse re-acordar habito-me melhor. E reencontro-me com o que preciso de purificar, desbloquear, perdoar, reunir e amar.

É que as condições ainda que perfeitas para a personalidade foram duras, fraturantes. Como assim tenho direito a existir e ser eu, quando o princípio de vida me fez adaptar, calar o choro e a voz para garantir que podia sobreviver? Quando por mais que me expressasse não me senti vista e acolhida nas minhas necessidades?! Quando quis disponibilidade e não tive?!

Fui aprendendo o oposto da minha vontade. Afastando-me sem querer cada vez mais de mim. A ponto de não ter também eu disponibilidade para mim. Tanto a que atender lá fora: trabalho, amigos, festas, mais trabalho e atividades tantas para me ocupar de tudo menos de mim… como lá atrás também fizeram comigo.

Como se desaprende?! Vejo tanto lá fora, os outros e quanto me queixo que não me vêem?! Quanto me distraio de mim?! E quando fico é com tempo contado, vá dou-te esta migalha, vá despacha-te que a seguir temos coisas para fazer. Temos de ser funcionais ou de outra forma seremos excluídas do resto da manada.

Quando reparo, sinto que me dou uma chapada de luva branca. Quão devolvida sou aos meus olhos, ao que ainda não me dou com consistência, quantas mentiras ainda me prego.

Quanto temo pelo que mais anseio?! AMOR. Por este ser maravilhoso que sou. Consigo-o dizer todos os dias, todas as vezes sem hesitar, com firmeza, constância e acolhimento?!

Honestamente sigo aprendendo… Ainda há dias que me quero mandar de férias para bem longe, principalmente quando não sou a boa menina para os meus olhos. Quando me corrompo, quando acordo com o rabo destapado, cheia de raivas, ressentimentos e a coitadinha ativada.

A dramática, tantas vezes quero jogá-la fora do carro em andamento e passar-lhe as rodas por cima?! Já a iluminada, disciplinada e sabichona, ui essa apetece-me pô-la num altar, engradecê-la, aplaudi-la e exibi-la a todos, olhem esta sábia tão fixe e importante que aqui anda e desfila.

Nenhuma delas é mais importante que a outra, ainda que a minha mente adore discriminar. Claro que uma me faz sentir super bem, alegre, amorosa e íntegra e outra separada, só e um lixo andante. Mas ambas me falam de amor, o quanto querem ser acolhidas e amadas e não comparadas. Tudo pode existir sem que me precise destacar e também destacando desfaço identificações e apegos.

Aceitação radical de tudo o que é! Olho para o diferente, para a superação que tantos humanos passam seja pela mudança das circunstâncias físicas, mentais, emocionais e digo para mim, quão extraordinário é o ser humano na sua complexidade e capacidade de se amar e elevar. E apequeno-me com as tempestades que faço num copo de água, como se do fim do mundo se tratasse. E depois respingo e dou-me o direito a sentir tudo, era só o que faltava. Nada a comparar. E cada um vem com as tempestades necessárias ao seu processo. Tudo é digno.

É que aceitar fala de tudo o que se mostra. E sabemos que é difícil e também isso é para aceitar, até que se desfaça, dissolva e se relaxe.

Sempre que me derramo, que me denuncio e destruo na oportunidade crua de me desfazer até ao limite descubro sempre uma mão que me segura, que me traz para cima, que me abraça e acolhe. Não há um lado sem o outro, ainda que possa temer a destruição e a desistência, quando navego na profundidade descubro a leveza de vir ao de cima uma nova luz.

Se lá atrás há feridas de abandono e as repito quando me abandono enquanto estendo o dedo a arranjar culpados que continuam a propagar abandonos na minha vida… abro os olhos e vejo por entre as nuvens as frechas do sol a entrar. De que outra forma poderia ver-me, receber-me e reconhecer a falta que me faço e ser a luz que procuro em mim?!

Sempre haverão faróis para me acender quando me esquecer que sou luz e a levo dentro.

Raivas por sair, dores por purgar para que pare de rejeitar a vida tal como me foi dada e possa receber as bênçãos em mim. Obrigada pelos gritos que dás, pela emoção à flor da pele, pela agressividade que externalizas e me faz contactar com a minha. Não a preciso repetir, mas através de ti, acedo também a mim. Posso deixar-te ir sem que torne nada pessoal. Nem os meus comportamentos. Tudo é passageiro e permito ser passagem e também passageiro.

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