
“Não somos nada”. Sempre ouvi muito esta frase desde pequena. Já mais à frente em adulta ouço outra “não queiras ser nada”. 🙄🤪
E sinto que estas frases se vão descascando por várias camadas. E lembro-me do impacto que a segunda teve quando a recebi, de como assim, é a ambição que nos leva a sonhar, a desejar, como assim destruir isso?! E o que fica?!
Achei que teria de abdicar do meu querer, dos desejos e ser atirada para esse vazio de não ter nada a que me agarrar, apenas ficar no presente à espera que ele se manifeste momento a momento revelando o propósito e o caminho. Sem plano, sem agenda?! Sim, a mente começou logo a imaginar o cenário destruturante e caótico. E ela é ótima a criar cenários 😅🤣
E vai observando a sua vida até aqui e quantas mudanças e reviravoltas e quantas formas distintas assumiu no palco da vida e percebe que nenhum lugar é fixo, tudo se altera. Então eu não sou os cargos e funções que ocupei.
Não há nada a que me agarrar. E esse ser nada pode ser altamente libertador e abre a possibilidades infinitas.
Olho para fora e nestas últimas semanas assisto à fragilidade do ser humano, às reviravoltas da doença que tira o tapete e obriga à reconfiguração da vida. À morte de uma figura pública que estava apagada e que a morte acende, revelando os contrastes coloridos entre o ter e o perder tudo, a volatilidade, a impermanência, a reconstrução permanente a que a vida sempre convida ciclo após ciclo.
E observo a minha adição às formas, a querer manter o belo e confortável, a dificuldade em deixar ir, a fantasia da alegria e prazer permanentes.
E sim posso querer a leveza, a alegria sem que isso me faça resistir ao seu contrário. Tudo é travessia e retirar carga ao positivo e negativo é a aprendizagem.
O querer estimula a motivação para seguir os próximos passos, mas também os pode condicionar.
Há dias que acordo em pleno vazio, sem agenda, sem propósito e plano e sou surpreendida pelo arranque que Deus dá. O impulso que me faz sair da cama, agradecer, a mensagem no telemóvel, a chamada. E observar os convites que chegam, os reconhecimentos. O valor da presença e o quanto acontece aparentemente sem fazer nada.
E apanho-me, sempre me apanho em perguntas que faço ao Universo, “para quê?”, “para onde?”, “qual o contributo?”
E sorrio quando me dou conta das respostas, da qualidade da presença e o quanto ela é importante.
A simplicidade tem andado presente e quanto há para destrinçar acerca dela. Quão profunda e que capas tenho de despir para poder desfrutar dela mais plenamente?!
Damos pouca importância à importância que é sermos nós e julgamo-nos mais importantes do que aquilo que somos. Parodoxos, controversos, incoerentes, cíclicos, intermitentes, inconsistentes, quem diria que é esta montanha russa que nos abre a este grande universo criativo que somos.
E se a proposta for abrir para este grande nada e permitir-me vivê-lo nesse ciclo impermanente em permanente fluxo?! E se o único que há para fazer é ser obediente à vontade que nasce de dentro e estar suficiente desperta para escutá-la?.
